
Por Caetano Melhor
Meu caro Martins Calima,
Dizem que os velhos colegas de faculdade carregam duas obrigações: recordar os bons tempos e dizer a verdade quando o outro começa a confundir o espelho com a moldura. Hoje escrevo-te por causa da segunda.
Li o teu artigo sobre a chamada “maturidade democrática”. Li-o com o respeito que devo a um colega de profissão, mas terminei a leitura com a estranha sensação de que não estava diante de um artigo de opinião. Estava diante de um advogado que, antes mesmo de ouvir todas as testemunhas, já tinha escrito as alegações finais.
Confesso que me intrigaste, não pelas ideias que defendeste, mas pelas perguntas que decidiste não fazer. Na universidade ensinaram-nos que um jornalista deve desconfiar até das próprias convicções. No teu texto, porém, encontrei uma convicção que não permitiu que a dúvida entrasse pela porta. E quando a dúvida é expulsa da redação, a propaganda costuma pedir uma cadeira.
Dizes que os tribunais devem ser o último recurso dos partidos. Bonita frase, elegante parece saída de um manual de ciência política. Mas fiquei à espera da continuação. E quando o partido transforma o diálogo interno num teatro onde os aplausos já vêm gravados? E quando o congresso deixa de ser um espaço de debate para se transformar numa cerimónia de confirmação? E quando as vozes discordantes passam a entrar pela porta da frente e a sair pela porta dos fundos da disciplina partidária?
Nessas circunstâncias, Martins, o militante conversa com quem? Com as paredes? Com os retratos da liderança pendurados na sala? Ou deve escrever uma carta ao silêncio, esperando que este lhe responda?
O curioso é que apresentas o tribunal quase como um hospital para partidos doentes, quando esqueces que, muitas vezes, o partido chega ao tribunal precisamente porque matou o seu próprio médico: o debate interno.
Não é o tribunal que adoece a democracia. É a ausência de democracia dentro dos partidos que faz nascer processos judiciais, mas essa parte ficou curiosamente fora da tua análise, talvez tenha perdido o autocarro ou talvez não tenha recebido autorização para embarcar.
Depois vem outro exercício interessante, misturas todos os partidos na mesma panela, mexes com uma colher chamada “todos fazem o mesmo” e serves ao leitor uma sopa onde ninguém consegue distinguir quem tem febre de quem apenas entrou na cozinha.
É uma técnica antiga, quando todos são igualmente culpados, ninguém precisa responder por nada. É a democracia da borracha: apaga diferenças para que algumas responsabilidades desapareçam junto com elas.
Mas o momento que mais me impressionou não foi esse. Foi o último parágrafo. Ali, a tua caneta fez aquilo que raramente um jornalista deveria permitir. Tirou a toga da análise e vestiu a camisola da preferência.
“A Frelimo é um exemplo mundial.”
Parei, voltei a ler. Pensei que talvez tivesse saltado uma página, procurei os indicadores. Procurei estudos, procurei rankings, procurei relatórios internacionais, não encontrei nada, encontrei apenas uma frase tão absoluta que nem a realidade conseguiu acompanhá-la, fiquei a pensar: exemplo mundial para quem?
Para os países que confundem unanimidade com democracia? Para aqueles onde os congressos produzem mais aplausos do que perguntas? ou para os lugares onde o contraditório é tratado como um vírus que precisa de quarentena?
Porque exemplos mundiais normalmente não se autoproclamam. São reconhecidos com evidências, com factos, com resultados comparáveis, não com entusiasmo.
Meu caro Martins,
O mais curioso é que passaste o artigo inteiro a defender que ninguém deve correr para os tribunais. Mas não tiveste o mesmo cuidado antes de absolver politicamente um partido inteiro.
Condenaste a judicialização sem julgar a qualidade da democracia interna, Criticaste os efeitos e ignoraste as causas. É como censurar um doente por procurar o hospital, enquanto se elogia o médico que nunca fez o diagnóstico.
E sabes qual foi a imagem que me ficou depois de terminar o teu texto? A de um árbitro que entrou em campo vestido de preto, parecia imparcial, trazia o apito ao pescoço, distribuía discursos sobre justiça.
Mas, quando o jogo terminou, levantou discretamente o cachecol de uma das equipas. Foi nesse instante que todos perceberam que o uniforme era apenas uma fantasia. Martins, continuo a acreditar que o jornalismo não foi feito para fabricar conforto ao poder.
Foi feito para fabricar desconforto às certezas, a boa opinião não serve para distribuir certificados de excelência política, serve para fazer perguntas que incomodam todos, sobretudo aqueles que ocupam as cadeiras mais altas.
Porque a democracia não amadurece quando os articulistas aprendem a elogiar melhor amadurece quando aprendem a desconfiar até dos elogios que eles próprios escrevem.
Recebe esta carta como ela foi escrita, não por um adversário, mas por um colega que ainda acredita que a maior lealdade de um jornalista nunca deve ser para com um partido, deve ser para com a dúvida. Porque, quando a caneta deixa de fiscalizar o poder e passa a acariciá-lo, deixa de escrever história.
Passa apenas a polir monumentos.