Tibana desafia quadros da Frelimo a romperem com o sistema que, diz, mantém Moçambique em declínio

O analista Roberto Tibana lançou um forte desafio aos quadros da Frelimo reunidos em Chimoio, em Manica, acusando o partido no poder de ter construído e mantido, ao longo de cinco décadas, um sistema político e económico marcado pela exclusão, corrupção, desigualdade e repressão.

Na segunda parte da sua “carta em três marcos aos quadros da Frelimo”, Tibana sustenta que Moçambique vive um ciclo de fragilidade em que problemas estruturais, tensões políticas e instabilidade se alimentam mutuamente.

Segundo o analista, estruturas económicas de natureza extractiva, associadas à desigualdade, corrupção e repressão estatal, terão aprofundado a distância entre o Estado e os cidadãos, dificultando a construção de consensos e o desenvolvimento do país.

Tibana vai mais longe e afirma que este modelo terá criado uma elite beneficiária do sistema, tornando difícil, inclusive dentro da própria Frelimo, reconhecer os seus efeitos e promover mudanças.

“O sistema que a Frelimo montou é para não funcionar com competência, honestidade, responsabilidade e sentido de servir o público”, escreve, defendendo que o problema da governação não reside necessariamente na falta de quadros competentes, mas nas regras e mecanismos através dos quais o poder é exercido.

Corrupção e privilégios

Na sua análise, Tibana relaciona a permanência de práticas de corrupção com a distribuição de oportunidades e posições dentro do aparelho do Estado e acusa a Frelimo de ter criado condições que favorecem a concentração de recursos e privilégios entre pessoas ligadas ao partido.

O analista recupera, neste contexto, a conhecida expressão “o cabrito come onde está amarrado”, associando-a à tolerância perante práticas de apropriação indevida de recursos públicos.

Para Tibana, a questão central não é apenas a existência de corrupção, mas a existência de um sistema que, na sua leitura, permite a sua reprodução e dificulta a responsabilização dos seus protagonistas.

Fraude eleitoral e repressão

A análise também incide sobre a crise pós-eleitoral, com Tibana a rejeitar a narrativa que responsabiliza exclusivamente os manifestantes pela violência registada durante os protestos.

Sem poupar críticas à liderança actual, o analista sustenta que a crise deve ser compreendida a partir das denúncias de fraude eleitoral e da resposta das forças de segurança às manifestações.

Tibana considera, por isso, “irresponsabilidade política” falar dos crimes da guerra civil como se tivessem sido cometidos apenas pelo adversário, defendendo que uma verdadeira reconciliação nacional exige o reconhecimento dos erros e responsabilidades de todas as partes.

Críticas a Daniel Chapo

O Presidente da República, Daniel Chapo, também é alvo da análise. Tibana considera que o actual Chefe de Estado está condicionado pelo sistema político que o levou à liderança da Frelimo e, posteriormente, à Presidência da República.

Na sua interpretação, Chapo terá sido colocado perante uma escolha entre romper com esse sistema ou preservar a sua lógica de funcionamento. Tibana alerta que, caso não haja uma mudança de trajectória, o Presidente poderá conduzir o país para uma deriva autoritária.

O analista questiona igualmente a coerência entre a disposição manifestada pelo Governo para dialogar com grupos armados no norte do país e a alegada dificuldade em estabelecer diálogo com figuras da oposição política interna.

“A escolha é vossa”

Para Tibana, o principal problema da Frelimo reside na ausência de uma verdadeira disputa interna pela liderança e na existência de estruturas que, segundo afirma, permitem que decisões fundamentais sejam tomadas por grupos restritos.

É neste ponto que lança o seu desafio mais directo aos quadros reunidos em Chimoio: romper com o modelo que, na sua avaliação, tornou o partido incapaz de transformar a sua capacidade humana e experiência acumulada numa governação eficaz.

“A escolha é vossa”, escreve Tibana no final da carta.

O analista termina com uma referência ao sentimento que diz encontrar entre cidadãos comuns, afirmando que muitos já não esperam mudanças imediatas e têm os próximos ciclos eleitorais como horizonte.

Para Tibana, a questão que se coloca à Frelimo é, portanto, menos sobre a sua capacidade de permanecer no poder e mais sobre a sua disposição para mudar o sistema através do qual exerce esse poder.

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