O analista Nelson Vidro considera que a 11.ª Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, que decorre em Chimoio, está a revelar uma abertura interna que, segundo afirma, contraria a expectativa de que o encontro seria marcado apenas pela concordância com as orientações da liderança.
Num texto de opinião publicado após acompanhar os primeiros dois dias da reunião, Vidro recupera uma caricatura publicada no Suplemento Humorístico Canalha, do Semanário Canal de Moçambique, na qual participantes aparecem numa fila para entrar na tenda da conferência enquanto um homem recolhe os seus cérebros à entrada.
A caricatura, explica, sugeria que os membros da Frelimo entrariam na conferência sem capacidade ou disposição para questionar as decisões do partido.
Vidro diz, contudo, ter constatado uma realidade diferente.
“Confesso que temi que fosse exactamente assim. Mas não foi”, escreve, acrescentando, em tom irónico, que alguns participantes terão entrado “sorrateiramente na tenda com os cérebros no lugar”, numa referência à frontalidade com que, segundo ele, os delegados estão a abordar problemas internos e nacionais.
Pobreza e corrupção entram na discussão
Entre os assuntos que Vidro considera relevantes nos debates estão a pobreza, o desemprego, a corrupção, a alegada arrogância de alguns dirigentes, a falta de oportunidades para os jovens e a necessidade de garantir que os recursos naturais beneficiem mais a população moçambicana.
O analista saúda particularmente a disposição de alguns membros da Frelimo de falar dos problemas “pelos seus próprios nomes”, em linha com o apelo do Secretário-Geral do partido, Chakil Aboobacar, para uma discussão directa, sem procurar “massagear” ninguém nem praticar auto-engano.
Na sua leitura, esta abertura representa uma oportunidade para a Frelimo olhar para os seus próprios problemas e reconhecer comportamentos que podem estar a afastar o partido das populações.
Vidro critica, nesse sentido, dirigentes que, depois de chegarem ao poder, terão perdido a ligação com o povo e passado a encarar os cargos públicos como privilégios.
“O cargo público existe para servir e não para ser servido”, defende.
Jovens e corrupção entre as prioridades
A situação dos jovens é outro dos pontos destacados pelo analista. Para Vidro, um país maioritariamente jovem não pode discutir o seu futuro sem colocar no centro questões como emprego, formação profissional, oportunidades e participação dos jovens nos processos de decisão.
A corrupção também deve, na sua opinião, ser enfrentada dentro do próprio partido.
Vidro defende que qualquer membro envolvido em práticas corruptas deve responder pelos seus actos, independentemente da posição que ocupe.
“O partido não deve proteger quem prejudica o povo e mancha o nome da organização”, afirma.
Elogios a Daniel Chapo
O Presidente da República e presidente da Frelimo, Daniel Chapo, é igualmente destacado por Vidro pela abertura que, segundo o analista, está a permitir dentro do partido.
Para Vidro, um líder não deve recear críticas dos seus próprios membros, devendo, pelo contrário, criar espaço para que os problemas sejam expostos e discutidos.
O analista considera esta abertura um dos principais méritos da Conferência de Chimoio, embora advirta que o verdadeiro teste será a capacidade de transformar as discussões em decisões e, posteriormente, em resultados concretos.
“Povo no Poder”
Vidro relaciona os debates da conferência com a expressão “Povo no Poder”, associada ao antigo Presidente Samora Machel.
Na sua interpretação, o princípio significa que os dirigentes devem ouvir as populações, conhecer os seus problemas, respeitá-las e prestar contas sobre o exercício do poder.
Apesar das sucessivas reuniões realizadas pela Frelimo ao longo dos anos, observa Vidro, muitos dos problemas levantados pela população continuam a repetir-se.
Por isso, defende que a conferência deve representar mais do que um momento de reflexão interna.
“O verdadeiro teste desta conferência será aquilo que acontecer depois de Chimoio”, escreve.
Vidro diz sair dos primeiros dois dias do encontro “optimista, mas vigilante”, considerando que a renovação da Frelimo não dependerá apenas de Daniel Chapo, mas também da conduta dos membros do partido, sobretudo dos que ocupam posições de chefia.
Para o analista, o desafio passa agora por transformar as preocupações apresentadas pelas bases em medidas concretas capazes de responder às necessidades da população.
“O povo falou em cada uma das células. Os camaradas ouviram e carregaram as preocupações para a 11.ª Conferência Nacional de Quadros. Depois daqui, é preciso agir”, conclui.