O ÚNICO PECADO DE DOM JAIME

Por Samuel Simango

O ÚNICO PECADO DE DOM JAIME é o título do livro da autoria de Gabriel Pedro Mucutubua, professor, jornalista, escritor, entusiasta por filosofia, ciência política e sociedade moçambicano a partir de convicções próprias.

Aceitei a missão de apresentar este livro por três razões fundamentais:

Primeiro, pelo ineditismo do tema que o livro traz num contexto em que escrever sobre assuntos pouco usuais e periclitantes na visão de algumas correntes de pensamento ainda um desafio visto como de coragem e assustador.

Segundo, porque me identifico plenamente com o conteúdo do livro que ora vou apresentar publicamente neste maravilhoso lugar onde em 2003 também apresentei o livro de Bernabé Ncomo “Uria Simango: Um Homem uma Causa”, o que me faz recordar outras grandes figuras que lutaram por Moçambique e que amadureceram o seu pensamento patriótico aqui nesta cidade cosmopolita da Beira.

Terceiro, pela consideração que nutro pela figura de Dom Jaime Pedro Goncalves que marcou a Igreja Profética Católica de Moçambique no período tanto anterior como posterior à independência nacional, este homem franzino e de passos vibrantes que a história política, social e religiosa dos moçambicanos nos últimos 60 anos e que ainda precisa de ser explorada a partir de várias lentes.

O livro que vos apresento procura ser uma referência na análise política e social da recente história do Moçambique independente e é, portanto, um contributo muito significativo, tanto para a reflexão política e social nas vertentes académica e intelectual que este país tanto precisa.

O autor do livro ao trazer o dilema da Paz política e social em Moçambique não como estamos habituados, mas saindo do discurso simplista de ver a paz e a reconciliação em Moçambique como problema dos outros e não nosso, Gabriel   pretende valorizar o conceito de Paz e reconciliação baseado nos valores éticos e de diálogo entre irmãos sem vencidos e sem vencedores como âncora da convivência entre irmãos no nosso país.

Gabriel Mucutubua conhece bem esta sociedade que se chama Moçambique e as dinâmicas dos conflitos porque este país viveu desde a proclamação da independência política nacional, isto é, desde a arriar da bandeira portuguesa e o içar da bandeira de Moçambique. Ele vive intensamente o país real e por via disto tem a sensibilidade e autoridade de escrever sobre a problemática de guerra e da Paz em Moçambique.

Em O Único Pecado de Dom Jaime o autor apresenta-nos a personalidade forte de Dom Jaime Pedro Gonçalves, que ficou marcadamente na história de Moçambique pela sua luta para o restabelecimento da Paz perante uma guerra fratricida que reduziu o país em escombros com um saldo, segundo as fontes oficiais, de mais de um milhão de mortos, milhares de deslocados e de bastante sofrimento para os moçambicanos.

Na sua sabedoria, Gabriel Mucutubua induz-nos a verticalidade e frontalidade com que Dom Jaime abordava os assuntos mais profundos que dividiam os moçambicanos e que o tornou um homem incompreendido por uma parte dos seus contemporâneos e até sacrificado por dizer a verdade sobretudo na dimensão apelativa ao diálogo, elemento que sempre acreditou que era o mecanismo certo para o alcance da paz e reconciliação. Esta premissa defendida por Dom Jaime era então uma opinião incomum e desconfiada na época uma vez que havia forte convicção de que o conflito político e militar que dilacerava o nosso solo pátrio terminaria com a força das armas e na vitória de uma das partes.

É incontornável notar como propõe o autor que O Único Pecado de Dom Jaime não é em si uma crítica da crítica dos seus críticos e nem uma crítica da nossa história, mas é sobretudo uma análise minuciosa de uma perspectiva diferente da percepção comum sobre a abordagem contra a violência armada no país sugerida pelo bispo que para muitos era pouco clara, mas bastante assertiva sob ponto de vista de resultados.

 Em O Único Pecado de Dom Jaime o autor coloca bem claro, aqueles que procuravam minimizar o sofrimento causado pela guerra, o que, levou o bispo a estar em contra-mão com essa corrente ao abordar com profundidade a crise humanitária provocada pela guerra numa altura em que o governo na época tratava o conflito como sendo acções esporádicas de banditismo, de ataques localizados entre outras terminologias que de longe reflectiam o verdadeiro drama no terreno. Dom Jaime dono de uma coragem ímpar e sem medo acabou sendo a primeira voz pública que condenava o recurso à violência perante um povo indefeso e sofrido porque na verdade não passava muito tempo que o país saíra da guerra colonial, por isso, o presbítero falava com preocupação o rumo que país seguia de normalização do conflito.

O autor, na sua obra, revela como Dom Jaime corajosamente inicia os contactos que pudessem levar aos caminhos de se chegar a liderança da RENAMO mesmo contra a reprovação e resistência do governo, de uma parte da hierarquia da própria Igreja Católica e das Igrejas filiadas no Conselho Cristão de Moçambique. É nesta busca genuína da Paz que o Gabriel traz à tona a figura pouco conhecida de Artur da Fonseca quadro da RENAMO, conterrâneo e contemporâneo de Dom Jaime nas terras de Sofala e residente na Alemanha que viria ser uma porta importante para o primeiro encontro entre o líder da RENAMO Afonso Dhlakama e Dom Jaime o que seria decisivo para aproximar o governo e os resistentes. Importa referir que Artur da Fonseca homem discreto e boémio que se juntou à FRELIMO nos anos 60 saindo do Bairro de São benedito na Beira, foi secretário das Relações Exteriores da RENAMO durante a década de 1980, actuando no plano internacional e em missões de representação política e diplomática do movimento no estrangeiro, nomeadamente na Europa e nos Estados Unidos.

O autor apresenta Dom Jaime como um homem multifacetado e de difícil compreensão pela sua abertura e sua natureza de comunicar de forma aberta e directa independentemente do pensamento veiculado pelos discursos oficiais. O autor, parece ter conhecido muito bem o Arcebispo da Beira ao defini-lo como uma pessoa que nunca confundiu o certo e o errado e a frontalidade na crença em um Moçambique melhor e ao insistir na necessidade de diálogo para a resolução de qualquer desentendimento entre os moçambicanos.

Na sua brilhante abordagem, Gabriel reconhece que um dos méritos de Dom Jaime reside de certa forma em ter sido uma das pouquíssimas figuras públicas no período da ditadura monopartidária que procurou a título individual contra os interesses instalados, através da responsabilidade que carregava na Conferência Episcopal de Moçambique o contacto directo com o líder da RENAMO nas matas de Gorongosa, em Sofala, e convencê-lo a aceitar  dialogar com o Governo para pôr fim a guerra que grassava e retardava a afirmação da nossa pátria amada.

É impressionante como Gabriel Mucutubua descreve que com pouco ou quase sem nenhum poder persuasivo ao regime da FRELIMO o bispo continuou resoluto quanto a sua posição inicial da necessidade de diálogo entre o governo e a RENAMO para a solução do conflito moçambicano. Perante o drama humanitário vivido pelos moçambicanos o bispo procurou partilhar a situação do conflito de Moçambique para além-fronteira em busca de apoio para o fim das hostilidades políticas e militares que tornava animalescos as populações vítimas, situação que ele melhor que ninguém conhecia através das suas viagens pastorais.

O autor faz-nos nos navegar no pensamento forte do bispo que era de ver um Moçambique melhor, sem fome, sem guerra, sem perseguições e livre das estratégias dos beligerantes. Esta sua posição firme aprendida do seu mentor Dom Sebastião Soares de Resende fê-lo sofrer ainda no tempo colonial quando a PIDE e a Polícia de Choque não lhe deixam circular pelos bairros periféricos da cidade da Beira acusando-o de estar associado à revolução indígena e anti-colonial na sua catequese nocturna. O espírito de irreverência de Dom Jaime de combate as causas do sofrimento do povo a que ele fazia parte não lhe permitiu ficar indiferente aos prejuízos políticos, sociais e económicos que a guerra entre a RENAMO e o governo da FRELIMO impunha aos moçambicanos.

A obra de Gabriel Mucutubua não se se acobarda das nossas realidades, como moçambicanos, dos erros cometidos ao longo da nossa história como nação independente. Dom Jaime é descrito como o Bispo que confrontava Samora Machel para a necessidade do diálogo com a RENAMO para trazer a paz para Moçambique E nisto, Samora rebate aos bispos: ˝querem que o Governo da República de Moçambique negoceie com os assassinos e ladrões, com raptores e sádicos, com marginais e drogados e anti-sociais. Querem que negociemos com os vendilhões da pátria, com os inimigos implacáveis do povo moçambicano˝, estavam então dissipadas as dúvidas em relação à sugestão dos bispos de um possível frente-a-frente entre os beligerantes para acabar com a guerra em Moçambique.

Gabriel nos assegura que apesar de todas as dificuldades criadas para que os moçambicanos continuassem a guerra entre irmãos Dom Jaime vai ser uma das figuras que tem a paternidade dos Acordos de Paz assinados em Roma entre o governo da FRELIMO e a RENAMO.

O dilema da paternidade da paz entre os moçambicanos leva a existência da questão da chamada “Paz Moçambicana ou Paz italiana?”. O bispo da Beira, Dom Jaime Pedro Gonçalves reconhece o papel da Itália, de Roma e em partícula a Comunidade de Santo Egídio na sinuosa busca pela paz, mas, ele tem a convicção férrea de que esta paz que temos com as suas coisas menos boas e boas é efectivamente a paz dos moçambicanos e cabe a eles a sua manutenção e consolidação.

Para o autor deste livro, mesmo reconhecendo todo o contributo que Dom Jaime deu para que os moçambicanos alcancem a paz que se pretendia em Moçambique a 4 de Outubro de 1992 através do Acordo Geral de Roma, as forças contrárias aos seus esforços pela paz e progresso de Moçambique, tudo fazem para diminuir a importância dos esforços que este clérigo fez para o seu próprio país, estas forças procuram colocar Dom Jaime numa encruzilhada para dele encontrarem dissonâncias, falhas, erros e pecados no seu longo percurso de serviço aos moçambicanos.  É daí seguramente onde está o cerne do título:   O Único Pecado de Dom Jaime

Nesta obra, o autor, procura respostas ao título que ele próprio criou a partir do episodio conhecido por “Conflito entre os Ndau e os Sena na Munhava” ao dialogar com pessoas concretas que viveram as inquietações de Dom Jaime nos momentos difíceis da busca pela paz. É assim que vozes diversas são trazidas no livro para discutirem o “O Único Pecado de Dom Jaime” e, espero que vocês os leitores, através de uma a leitura cuidada da obra consigam conversar com Albano Carige, Padre Machate, Gumancanze, Wilker Dias, Adelino Timóteo, Francisco Muianga e outros para tirarem as vossas conclusões.

O escritor desta obra debruça-se sobre as várias categorizações que recaíram sobre Dom Jaime referindo-se que o bispo foi alvo de uma serie de críticas, algumas directas e outras veladas, umas justas e outras  injustas, outras amigáveis outras ofensivas. Fica claro na leitura do livro que clérigo da Beira, continuador da Igreja Católica Profética do 1° Bispo da Beira Dom Sebastião Soares de Resende, não procurava agradar a todos, ele tinha uma posição própria sobre assuntos que o país vivia e almejava insistentemente mesmo contra a corrente por uma paz política, económica, social e religiosa entre os moçambicanos.

O autor do “O Único Pecado de Dom Jaime” fecha toda a sua narração trazendo um momento solene que foi a morte e o sepultamento de Dom Jaime, onde quase todos convergiram no reconhecimento desta figura pelos seus feitos na busca pela Paz e Reconciliação dos moçambicanos. Dando voz aos participantes conseguiu-se depreender como se lê abaixo:

Daviz Simango, Presidente do MDM e do Município da Beira que considerava Dom Jaime como pai adoptivo e principal conselheiro da vida sentenciou:

Estão de luto os amantes da liberdade, da paz e da honestidade, pela morte de uma das figuras mais visíveis da paz e da reconciliação. Dom Jaime era uma voz inspirada e a sua figura ultrapassa as fronteiras da Beira e de Moçambique em geral. Ele transmitia a confiança dos amantes da paz e do amor ao próximo. Por tudo aquilo que Dom Jaime fez para este país, esperamos que os moçambicanos possam um dia reconhecê-lo como herói nacional. Calou-se a voz que não tinha medo.

Raul Domingos Chefe da delegação da RENAMO no processo negocial em Roma, tomando o conhecimento profundo carácter de Dom Jaime, pronunciou:

Dom Jaime Pedro Gonçalves deixou-nos bons exemplos de que as diferenças só podem ser ultrapassadas pelo diálogo e a inclusão. É isso que deve ficar para os moçambicanos, para uma grande reflexão assente no diálogo e reconciliação. Desta forma podemos seguir uma paz perene.

O Antigo estadista moçambicano Joaquim Chissano que em vários momentos esteve em rota de colisão com Dom Jaime confessou:

Em vida, tive muitas discussões e trabalhei com ele. Nalgumas vezes incumbi-lhe missões para além das iniciativas próprias que ele realizou com todas as suas forças em Nairobi, Estados Unidos e outros países. Trabalhamos sempre em prol da paz. Durante as negociações para a paz, as diferenças nunca nos afastaram.

O estadista Filipe Nyusi, presidente da República em exercício resumiu de forma categórica o sentimento genuíno das várias sensibilidades do povo moçambicano: ˝Dom Jaime despertou a consciência colectiva dos moçambicanos para a necessidade de uma sociedade de justiça, de harmonia social e de paz˝

 

O meu breve comentário crítico sobre o livro O Único Pecado de Dom Jaime

 É uma obra oportuna e providencial, num momento que a sociedade se debate com as causas de tantos males entre os quais estão a violência, a insegurança, a pobreza, a intolerância, o individualismo exacerbado, a exclusão do outro o que requer muita luta para aquisição de uma verdadeira paz. Verdadeira paz, por que se sabe, a Paz é um conceito muito usado, mas parece que nem sempre com a mesma visão, pelo facto que há quem pensa que paz é apenas a ausência da guerra ou    o silêncio momentâneo das armas.

Com uma linguagem muito simples, feita de rigor académico, dialogante e as vezes ríspida, o aparecimento de livro de uma imensidão de referências desde os clássicos da Filosofia política, da Ciência política e da História política convida-nos a ler este manancial de conhecimento filosófico, sociológico, histórico, político e literário.

Uma das fortalezas que caracterizam Gabriel neste O Único Pecado de Dom Jaime são:  desafia as nossas certezas e oferece uma perspectiva   profundamente necessária sobre a figura em causa e o contexto vivido pela maioria dos moçambicanos; o conteúdo do livro destaca-se pelo rigor da investigação e pela clareza com que desconstrói conceitos comuns de Paz, Reconciliação e Concórdia entre irmãos complexos da mesma Pátria; a capacidade do autor de cruzar dados partilhados com reflexões íntimas eleva o conteúdo  do livro num novo patamar para compreender as sinuosidades para pôr fim a Guerra Civil que durou 16 anos apondo a RENAMO e o governo da FRELIMO.

Este livro entrega ferramentas práticas e valiosas que o leitor precisa para compreender a figura de Dom Jaime e o seu contributo para a conquista da Paz entre os moçambicanos e a necessidade das elites políticas abandonarem os tacticismos políticos da intolerância política. Uma leitura urgente deste livro abre portas para debates sobre a consolidação da Paz e Reconciliação que a nossa sociedade já não pode continuar a adiar. Ademais, o conteúdo deste livro destaca-se pela sua enorme utilidade pública ao trazer com clareza o pensamento deste homem que viveu a sua vida pensando na grandeza da nobre alma dos moçambicanos.

Para um bom leitor, vai ler esta obra como se estivesse a degustar um bom caril de peixe madame frito em molho de coco (dengera) que as mulheres de Buane Sofala são eximias a preparar acompanhado de uma boa massa (saja) de Mexoeira (mbjunga) regados de um bom copo (mukhamba) de vinho de palmeira (uchema) em apenas dois finais de semana.

 Estimados leitores presentes nesta sala e aqueles que não conseguiram marcar a sua presença neste sublime momento por favor: Não cometam o único pecado de ler este livro sem viverem o seu conteúdo, por isso, vivam-no. Este livro vai mudar a nossa forma de vermos a necessidade de Paz, concórdia, reconciliação dos moçambicanos, liberdade e democracia. Vamos ler, não adiemos a sua leitura e vamos abrir as suas páginas para transformarmos as nossas mentes em prol de um Moçambique que se recomenda.

Muito obrigado.

Tatenda

Tabonga

Kanimambo

Zikomo kwambiri

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