Há algum tempo que leio, nas redes sociais, interpretações segundo as quais José Norberto seria racista. Nunca dei muita importância a essas acusações. Aliás, esse nunca foi um assunto que tivesse entrado no leque das nossas conversas.
No domingo passado, um amigo contactou-me. Afirmou que eu era amigo de José Norberto e, apesar de reconhecer o génio do artista, disse acreditar que ele era, também, racista.
Detive-me por um momento.José Norberto é racista? A resposta é: NÃO.
O meu interlocutor, amigo e jornalista, fez aquela afirmação depois de ver uma publicação de Lupa News na qual José Norberto condenava a repressão policial contra membros e simpatizantes da Anamola.
Confirmei que, sim, sou amigo de José Norberto.
Seguidamente, continuou a falar, numa voz que soava simultaneamente a desabafo e confissão. Explicou que admirava, e continua a admirar, José Norberto. Considera-o um artista de grande gabarito, um génio do seu tempo e alguém profundamente interventivo na sociedade.
Contou-me que, desde que conheceu José Norberto e conversou com ele numa bienal em que o artista havia conquistado um prémio, passou a admirá-lo e a acompanhá-lo, inclusive através das redes sociais.
Mas, ultimamente, deixou de segui-lo por causa daquilo a que chamou “a campanha dos altifalantes (Sucede que Norberto é contra poluição sonora e na zona suburbana de Maputo, onde reside, luta contra som alto dos aparelhos de som da vizinhança, festas, nos transportes semi-colectivos entre outros locais)” e, sobretudo, por considerar que José Norberto é racista.
Ao ouvir aquilo, fiquei atónito. José Norberto é racista?
Instalou-se um silêncio na nossa conversa. Depois, expliquei-lhe que conheço José Norberto para além do artista interventivo que aparece nas redes sociais. Conheço-o como amigo, aliás, como um dos poucos amigos com quem mantenho conversas francas, sinceras e sem máscaras.
Essa proximidade dá-me alguma vantagem para falar sobre ele com alguma propriedade.
Temos encontros regulares, em média uma vez por semana, numa espécie de “tradição” que já acumula um bom pedaço de anos.
Expliquei ao meu amigo que o que provavelmente está a acontecer é que José Norberto está a ser mal compreendido ou, em alguns casos, mal interpretado.
É um artista cuja dimensão pública pode, por vezes, parecer contraditória quando se compara aquilo que publica nas redes sociais com aquilo que é, diz e faz em conversas pessoais.
Não perdemos tempo a discutir conceitos de racismo. Preferi explicar através de exemplos.
José Norberto pode, nas redes sociais, dizer que Malangatana “não pinta nada”. Mas, numa conversa pessoal, é capaz de nos convencer de que Malangatana é um colosso, uma raridade das artes plásticas moçambicanas.
Pode também dizer que está decepcionado com determinada intervenção de Stwart Sucuma e, numa conversa pessoal, mencionar exactamente Stwart Sucuma como uma referência, um estratega a seguir.
À primeira vista, há uma contradição. Mas talvez seja precisamente aí que esteja a chave para compreender José Norberto.
As suas declarações públicas nem sempre devem ser lidas como uma tradução literal de tudo aquilo que pensa ou sente. Há provocação, há ironia, há confronto, há exagero e, sobretudo, há frontalidade.
Sobre a acusação de racismo, coloquei algumas questões ao meu interlocutor – não necessariamente para obter respostas.
Como conciliar a acusação de racismo com a centralidade que África e as pessoas negras ocupam na obra artística de José Norberto?
Enquanto conversávamos, por exemplo, o artista publicava nas redes sociais um quadro de uma mulher negra, de uma beleza extraordinária, exibindo-o com orgulho.
Como compreender a acusação de racismo quando o artista eleva, repetidamente, a beleza de mulheres e crianças negras nas suas obras?
Como compreender a sua defesa pública de pessoas negras e de gente humilde?
Naturalmente, nenhum destes elementos, isoladamente, é prova definitiva de que alguém não seja racista. Mas, quando colocados no conjunto daquilo que conheço de José Norberto, tornam a acusação demasiado simples para explicar um homem que é, por natureza, complexo.
Talvez o problema esteja também na nossa sociedade. Somos uma sociedade de interpretações, de máscaras, de falsidades e de excessos de politicamente correcto. Somos, muitas vezes, comedidos para sobreviver. E nem sempre estamos preparados para a frontalidade.
Talvez este seja um dos maiores “pecados” de José Norberto: a frontalidade. José Norberto é um homem frontal. Mais do que isso: é um homem frontal e vertical.
E frontalidade e verticalidade, quando coexistem numa mesma pessoa, podem tornar-se atributos difíceis de acomodar nos tempos actuais. Vivemos num tempo em que muitas pessoas preferem ouvir aquilo que confirma as suas convicções, e não necessariamente aquilo que as confronta.
Não pretendo aprofundar aqui o debate, muito menos empurrá-lo para as águas da política. Quero apenas deixar registada a minha leitura de alguém que conheço há anos.
José Norberto não é racista. É, antes, um artista complexo, provocador, frontal e, talvez, um filósofo incompreendido. Alguém que parece viver, em muitos aspectos, noutros tempos e segundo outras regras. E talvez seja precisamente por isso que seja tão difícil compreendê-lo.