José Norberto rejeita transferência de Quelimane defende cidade satélite

Antigo membro da equipa de planeamento físico considera que problemas de inundação podem ser enfrentados com tecnologia, drenagem e novo ordenamento territorial

O artista plástico e antigo membro da equipa de planeamento urbano da cidade de Quelimane, José Norberto, rejeita a ideia de transferência da capital da Zambézia para Mocuba ou Nicoadala, defendida pelo jornalista e comentador Hamilton António, e propõe, em alternativa, a criação de uma cidade satélite de Quelimane.

A posição foi apresentada numa reacção à proposta de Hamilton António, que considera que as limitações territoriais e os sucessivos alagamentos tornam necessário repensar a localização da capital provincial.

Para José Norberto, Quelimane é uma cidade histórica que não deve desaparecer nem ser simplesmente deslocada. “Pode-se fazer uma cidade satélite de Quelimane, assim como se fez Matola. Matola não é Maputo, é uma cidade satélite de Maputo”, defende.

O antigo membro da equipa de planeamento urbano considera que a questão central não está necessariamente na localização de Quelimane, mas na forma como a cidade tem sido planeada e gerida ao longo do tempo.

Segundo Norberto, a solução passa por recuperar uma visão técnica do território, começando pelo mapeamento das zonas altas e baixas, dos cursos naturais de água e das áreas susceptíveis a inundações.

Ele recorda que, no período em que trabalhou no planeamento físico, eram elaborados diversos mapas para orientar a expansão urbana, defendendo que actualmente a utilização de imagens de satélite e drones permite obter informação muito mais precisa sobre o território.

A partir desse levantamento, sustenta, seria possível identificar os cursos de água e criar sistemas de drenagem adequados. Norberto defende particularmente a utilização de canais abertos, que, além de permitirem o escoamento das águas, poderiam ser integrados em projectos de piscicultura, turismo e lazer.

“Todos os problemas poderiam ser transformados em oportunidades”, argumenta.

Quelimane como activo histórico

José Norberto acrescenta uma dimensão cultural à discussão. Para o artista plástico, uma eventual transferência da cidade significaria também retirar valor económico e turístico a uma área com uma história que considera singular.

Na sua leitura, Quelimane possui elementos históricos ligados à navegação, ao comércio, à presença colonial e à história da escravatura que poderiam ser transformados em activos turísticos e culturais.

É neste ponto que Norberto se distancia da ideia de construir uma nova capital fora de Quelimane. Em vez de abandonar a cidade, defende que o Estado deve investir no conhecimento do território, recuperar sistemas de drenagem, ordenar a expansão urbana e transformar a sua história em oportunidades económicas.

A reacção coloca assim duas propostas distintas no debate lançado por Hamilton António: transferir progressivamente a centralidade provincial para Mocuba ou Nicoadala, ou manter Quelimane como centro histórico e administrativo, criando novas áreas urbanas e reforçando o seu planeamento e infra-estruturas.

Para Norberto, a segunda opção exige sobretudo capacidade técnica, actualização dos instrumentos de planeamento e uma intervenção estruturada sobre o sistema de drenagem da cidade.

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