Guerra, Negócio e Poder: Como o conflito na Ucrânia está a criar novos bilionários na Europa*

Enquanto governos falam de segurança, empresas de defesa acumulam lucros históricos — e jovens empresários transformam-se em protagonistas da nova economia de guerra.

 

A guerra na Ucrânia não está apenas a redefinir o equilíbrio geopolítico europeu — está também a reconfigurar profundamente os centros de poder económico. Num cenário onde segurança e indústria caminham lado a lado, emergem novos protagonistas: empresários que, até há pouco tempo, operavam longe dos holofotes e que hoje figuram entre os mais influentes do continente.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Michal Strnad. Aos 33 anos, tornou-se o homem mais rico da República Checa, impulsionado por uma conjuntura global que transformou a indústria de defesa num dos sectores mais lucrativos e estratégicos da actualidade.

Strnad é o principal accionista da Czechoslovak Group (CSG), um conglomerado industrial fundado pelo seu pai e que, durante anos, operou com discrição. Esse ciclo terminou com a abertura de capital da empresa, em janeiro, avaliada em cerca de 25 mil milhões de euros — um movimento que não só projectou o nome do empresário no cenário internacional, como simbolizou a nova centralidade da indústria militar na economia europeia.

Os números confirmam essa transformação. Em 2024, a CSG registou receitas de 6,7 mil milhões de euros — um crescimento de 12 vezes em relação a 2021. Cerca de 80% desse volume está directamente ligado ao sector de defesa, posicionando a empresa entre os principais fabricantes de armamento da Europa. Mais ainda: tornou-se a segunda maior produtora de munições do continente, atrás apenas da Rheinmetall.

Este crescimento não é acidental — é estrutural. A guerra na Ucrânia desencadeou uma corrida ao rearmamento na Europa, criando um mercado robusto para empresas capazes de responder rapidamente à procura. A CSG desempenhou um papel central na chamada “Iniciativa Checa de Munições”, liderada por Petr Pavel, que mobilizou aliados ocidentais para fornecer armamento a Kiev. Só no último ano, cerca de 27% das receitas da empresa vieram directamente dessas operações.

Mas o verdadeiro movimento estratégico está na expansão global e na consolidação industrial. A CSG tem apostado numa política agressiva de aquisições: assumiu participação na italiana Fiocchi, adquiriu a americana Kinetic Group e avançou para a compra de parte da austríaca Hirtenberger Defence Systems. O objectivo é claro — controlar segmentos críticos da cadeia de valor e reduzir dependências externas.

“Este é o momento para consolidar o sector de defesa”, afirmou Strnad — uma declaração que reflecte não apenas ambição empresarial, mas uma leitura estratégica do contexto global.

Essa leitura inclui também a vantagem competitiva da localização. Com grande parte da produção baseada na República Checa e na Eslováquia, a CSG beneficia de custos laborais mais baixos do que os seus concorrentes da Europa Ocidental, mantendo simultaneamente controlo sobre a cadeia de abastecimento. A recente parceria com a empresa estatal grega Hellenic Defence Systems, para produção de explosivos como TNT, reforça essa lógica de integração vertical.
No entanto, o futuro não está garantido. A emergência de novas empresas tecnológicas de defesa, como a Helsing, sinaliza uma mudança de paradigma: drones, inteligência artificial e sistemas autónomos começam a disputar os mesmos orçamentos que, até agora, eram dominados por munições e armamento tradicional. Além disso, um eventual abrandamento ou fim da guerra na Ucrânia poderá reduzir drasticamente a procura.

Enquanto gere esse equilíbrio entre oportunidade e risco, Strnad começa também a consolidar influência no plano interno. A CSG tornou-se patrocinadora da equipa olímpica checa, e o empresário expandiu os seus interesses para o futebol ao adquirir o Viktoria Plzen, rival do clube ligado ao também bilionário Daniel Kretinsky.

Mais do que a ascensão de um indivíduo, este caso revela uma tendência global incontornável: em tempos de conflito, a indústria de defesa transforma-se num dos principais motores de crescimento económico, influência política e reposicionamento estratégico. A guerra, nesse contexto, deixa de ser apenas um fenómeno militar — passa a ser também um poderoso catalisador de riqueza e poder.

 

* Artigo produzido a partir de texto originalmente publicado no jornal The Economist, posteriormente traduzido e publicado no jornal* Folha de S.Paulo*.*

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