Clima mais extremo agrava riscos no País

 Texto: Bernardo Soares

Moçambique está a entrar numa nova fase climática marcada não apenas por mais calor, mas por um padrão cada vez mais errático e potencialmente destrutivo, num contexto em que os sinais de alerta se acumulam mais rápido do que as respostas institucionais.

O Relatório Anual do Estado do Clima de Moçambique em 2025, apresentado esta segunda-feira na capital do país, expõe com clareza um cenário de agravamento da variabilidade climática, com implicações diretas na economia, segurança alimentar e estabilidade social.

Apresentado por Isaías Raiva, climatologista e chefe do Departamento de Estudos e Aplicações em Meteorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM, IP), o documento foi divulgado no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Meteorologia, mas a sua relevância ultrapassa o simbolismo da data e coloca pressão sobre decisores públicos e privados.

O relatório confirma que 2025 foi marcado por anomalias térmicas significativas em várias regiões do país, com temperaturas médias acima dos padrões históricos. Mais do que um dado isolado, trata-se de uma continuidade de tendência, alinhada com o aquecimento global, que está a transformar o clima moçambicano num sistema menos previsível e mais hostil.

Por trás dos dados técnicos, emerge uma realidade mais inquietante: a intensificação de eventos extremos, como secas severas e chuvas intensas, já não pode ser tratada como exceção. Está a tornar-se regra. E quando o extremo se normaliza, os impactos deixam de ser episódicos e passam a ser estruturais, afectando cadeias produtivas, pressionando infraestruturas frágeis e ampliando desigualdades.

Essa leitura ganha contornos ainda mais concretos quando confrontada com o que já está a acontecer no terreno.

Na noite de domingo, poucas horas antes da divulgação do relatório, o Lupa News apurou junto de uma fonte na cidade de Xai-Xai que a zona baixa se encontra em estado de alerta, perante sinais de possível subida do nível das águas.

Paralelamente, há já registo de aumento de preços de produtos de primeira necessidade, num movimento que antecipa o impacto económico típico de cenários de cheias e restrições de circulação.

A pressão sobre os preços, nestas circunstâncias, não resulta apenas de especulação, mas também da disrupção logística. Estradas intransitáveis, cortes de acesso e interrupções no abastecimento tendem a reduzir a oferta de bens essenciais, criando um efeito em cadeia que penaliza sobretudo as famílias de baixa renda, agravando o custo de vida num contexto já fragilizado.

Tudo indica que o país pode estar à beira de uma nova vaga de cheias e inundações, com maior incidência na província de Gaza, mas com potenciais repercussões em outras regiões. Ainda esta semana, o Lupa News reportou uma situação considerada caótica no distrito de Machanga, na província de Sofala, onde milhares de pessoas enfrentam isolamento e perda de bens devido às inundações. No norte, cenários semelhantes começam também a emergir na província de Niassa, sugerindo que o fenómeno não é localizado, mas sim sistémico.

A agricultura, que sustenta grande parte da população, surge como um dos sectores mais expostos. A irregularidade das chuvas compromete colheitas, enquanto temperaturas elevadas reduzem a produtividade e aumentam a vulnerabilidade de comunidades rurais. No sector energético, sobretudo na produção hidroeléctrica, a dependência de regimes hídricos cada vez mais instáveis levanta riscos adicionais.

Ainda assim, o maior desafio parece não estar apenas no clima, mas na forma como o país responde — ou falha em responder. O relatório surge como mais um aviso num histórico de alertas que raramente se traduzem em acções estruturais consistentes. Persistem lacunas em sistemas de previsão acessíveis, ordenamento territorial eficaz e investimentos robustos em adaptação climática.

Num país recorrentemente atingido por choques climáticos, a ausência de uma resposta estratégica proporcional ao risco pode transformar eventos naturais em crises crónicas. A questão que se impõe já não é se o clima vai continuar a mudar, mas se Moçambique conseguirá adaptar-se a tempo de evitar que os seus efeitos se tornem irreversíveis.

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