Por Caetano Melhor
Meu filho Elvino Dias.
Escrevo-te com a mão emprestada do chefe do quarteirão Kambuina, com autorização do Ilustre chefe do Posto Papatuwé, homem que detém o carimbo para autorizar viagens desta carta para Maputo, porque a minha mão só conhece enxada. Não aprendi as letras da escola, mas a vida ensinou-me a ler a fome, a injustiça, o sofrimento do povo e o silêncio daqueles que deviam dar explicações.
Hoje, sentada no meu mucubi, “limite entre duas machambas” na machamba de Sagariveira volto a falar contigo. Passaram-se dois anos desde a sua morte, há mortes que não terminam no dia do enterro. Continuam vivas nas perguntas que ficam, nas respostas que não chegam e na Justiça que parece ter aprendido a andar com os pés amarrados.
Meu filho, tu foste advogado do povo. Defendeste causas que muitos preferiam ver enterradas antes mesmo de chegarem ao tribunal. Foste amigo do meu neto, e em 2009 partiram a Lourenço Marques para estudar, levando a esperança de que o conhecimento pudesse servir para melhorar a vida das pessoas.
Diz-me, Elvino, dois anos depois da tua morte, onde está a Justiça? Onde estão os avanços que a sociedade tem o direito de conhecer? Onde estão as explicações claras sobre o que aconteceu? Que diligências foram realizadas? Que respostas foram dadas à família, aos amigos e a todos aqueles que continuam a exigir esclarecimentos?
Não te escrevo para condenar ninguém sem provas. A minha idade ensinou-me que acusar sem provas é como iniciar a colheita antes do tempo, pode parecer que se está a fazer alguma coisa, mas o resultado é uma desilusão. Escrevo porque o silêncio não pode substituir a investigação, e o passar dos anos não pode transformar perguntas legítimas em assuntos proibidos.
A história do crime passional quem semeou essa versão? Meu filho, há uma pergunta que continua a bater à porta da consciência pública, de onde surgiu a versão de crime passional? Quem apresentou essa hipótese? Em que elementos se baseou? Foi uma conclusão sustentada por provas ou uma narrativa que ganhou espaço antes de todos os factos serem devidamente esclarecidos?
Porque se a motivaco foi passional, deve ser pela paixão que tu nutrias por este belo Moçambique, meu filho, quando alguém morre em circunstâncias que levantam dúvidas, não basta apresentar ao povo uma história que pareça simples. É preciso demonstrar os factos. Não se pode pedir à população que aceite uma explicação apenas porque ela foi repetida muitas vezes.
Uma versão não é uma prova. Um rumor não é uma sentença. E O SILÊNCIO DAS INSTITUIÇÕES NÃO É UMA RESPOSTA. Kambuina, escreve isso em letras grandes! Não quero que amanhã digam que Avó Torrina não sabe distinguir uma pergunta de uma acusação e que o arroz que sai da minha machmba é da oposição
“Estou numa viagem sem volta” há palavras que o tempo não consegue enterrar. Continuam a ecoar na memória daqueles que a recordam. E também permanece a declaração que ficou associada à tua preocupação com o futuro do país “se eu for morto, Moçambique não será mais o mesmo.”
Não sei tudo o que passava pela tua cabeça quando proferiste essas palavras. Não tenho acesso aos segredos dos homens nem aos documentos que possam esclarecer os últimos dias da tua vida. Mas sei que frases como essas não devem ser tratadas como simples enfeites de uma história trágica.
Não quero que a sua frase seja transformada em prova de uma conspiração sem que existam elementos para isso. Quero, sim, que não seja esquecida. Porque uma viagem sem volta pode terminar para quem parte, mas não termina para quem fica a procurar a verdade.
Tinhas razão sobre Moçambique
Disseste que, se fosses morto, Moçambique não seria mais o mesmo. Hoje, olho à minha volta e pergunto-me se compreendemos verdadeiramente o peso dessas palavras. Continuamos a assistir a denúncias e polémicas sobre a utilização dos recursos públicos. Há debates sobre compras de viaturas, despesas do Estado e suspeitas de sobrefaturação que exigem fiscalização, transparência e prestação de contas.
Enquanto o cidadão comum calcula o preço de um saco de farinha, há decisões de despesa pública que precisam de ser explicadas até ao último metical.
O povo compra uma bicicleta usada e ainda lhe perguntam se o preço não está demasiado alto. Mas, quando se fala de certas aquisições públicas, especialmente de viaturas, parece que o preço ganha rodas próprias e desaparece pela estrada da burocracia e a resposta e sempre a mesma temos que manter a dignidade dos nossos dirigentes.
É a ironia do nosso tempo, o camponês precisa de justificar cada quilo de milho que vende, mas o cidadão nem sempre encontra explicações suficientemente claras sobre cada metical que o Estado gasta. Não afirmo que todas as compras sejam irregulares. Não seria justo nem responsável. Mas exijo que qualquer suspeita de sobrefaturação seja investigada, que os contratos sejam transparentes e que os responsáveis, quando houver irregularidades comprovadas, sejam chamados a prestar contas.
Talvez seja essa uma das formas de responder à tua memória: construir um país onde a lei não seja forte apenas para os pequenos e tímida diante dos poderosos.
Meu filho Elvino, esta é talvez a pergunta mais delicada desta carta. A tua morte esteve, de alguma forma, ligada às questões eleitorais e aos resultados que sempre questionaste? Que fique claro: não afirmo que tenha existido essa ligação, nem disponho de provas para a estabelecer. Mas, se as tuas posições públicas sobre os processos eleitorais, as tuas denúncias ou as tuas atividades profissionais tiverem alguma relevância para esclarecer o que aconteceu, não deverão ser afastadas sem uma análise séria.
Houve ameaças relacionadas com a tua atuação? Existiam conflitos conhecidos? As tuas intervenções sobre os resultados eleitorais constituíam algum elemento relevante para a investigação? Foram essas possibilidades examinadas e descartadas com fundamento, ou permanecem questões por esclarecer? Não peço que a Justiça confirme as suspeitas do povo. Peço que investigue, que demonstre e que explique. Porque questionar não é condenar. Investigar não é perseguir. E procurar a verdade não devia ser considerado um crime.
Se não houve ligação alguma, que os factos o demonstrem. Se existirem elementos relevantes, que sejam examinados com independência. O que não podemos aceitar é que uma pergunta legítima seja enterrada juntamente com aquele que já não pode responder por si.
Dois anos depois, a Justiça continua a dever explicações? Meu filho, na machamba, quando uma planta não cresce, eu não fico dois anos a olhar para o mesmo buraco à espera de que a mandioca resolva nascer por vergonha. Verifico a semente. Examino a terra. Procuro a água. Se houver uma praga, tento descobrir de onde veio. Mas, quando se trata da Justiça, parece que há processos que ficam à espera de uma chuva que nunca chega.
Dois anos depois da tua morte, a sociedade tem o direito de perguntar o que foi feito, que resultados foram alcançados e o que ainda falta esclarecer. A família merece respostas. Os cidadãos merecem informação responsável. E as instituições têm o dever de comunicar, respeitando a investigação e os direitos de todas as pessoas envolvidas. Não peço uma condenação fabricada para satisfazer a indignação pública. Peço uma investigação que não se contente com atalhos, uma Justiça que não escolha as perguntas mais confortáveis e uma verdade que não dependa da posição social de quem possa estar envolvido.
A tua profissão de advogado do povo tornou-te uma voz de causas que ultrapassavam a tua própria pessoa. Por isso, a tua morte não pode ser reduzida a uma nota de rodapé, nem as questões que a rodeiam podem ser resolvidas pela simples passagem do calendário.
O recado final de uma velha que só sabe escrever na terra
Meu filho, Kambuina já está a ficar cansado de escrever, e eu ainda tenho milho para verificar, mandioca para cuidar e uma machamba inteira para trabalhar. A terra não espera pelos comunicados oficiais. A fome não suspende as suas atividades enquanto aguardamos esclarecimentos. E o povo não deixa de fazer perguntas só porque alguém se cansou de as ouvir.
Não sei se esta carta chegará às mãos de quem tem poder para agir. Talvez fique esquecida numa gaveta. Talvez alguém a leia e diga que é apenas a conversa de uma velha camponesa.
Mas, se a chamarem de velha, lembrem-se de que a idade me ensinou a esperar. E, se me chamarem de ignorante, lembrem-se de que a enxada também ensina, mostra que nenhuma colheita aparece sem trabalho e que nenhuma semente dá frutos se for abandonada na terra.
Aos responsáveis pela investigação, peço respostas claras sobre o andamento do caso, as diligências realizadas e as questões que continuam por esclarecer. Aos governantes, peço que se lembrem de que o dinheiro público não tem dono particular. Aos cidadãos, peço que não confundam rumores com provas, mas que também não confundam silêncio com verdade.
E a ti, Elvino, deixo estas palavras que Kambuina escreveu por mim: A tua morte não me autoriza a apontar culpados sem provas, mas também não me obriga a desistir de fazer perguntas. Se defendias o povo, que a tua memória continue a lembrar-nos de que a Justiça não é favor concedido pelos poderosos. É um direito de todos.
Eu continuarei aqui, no meu mucubi, na machamba de Sagariiveira, a escrever na terra com a enxada. Talvez não saiba assinar o meu nome no papel, mas sei reconhecer quando a verdade ainda não chegou à colheita. E, enquanto ela não chegar, a minha enxada continuará a abrir sulcose a minha voz continuará a fazer perguntas.