Passam dois anos sem a presença física de Elvino Dias. Frontal, indomável, um homem de causas, conhecido por “advogado do povo”, foi encontrado brutalmente morto, na madrugada de sábado, 19 de Outubro: crivado com mais de vinte balas, no seu automóvel. Com Elvino Dias também morreu Paulo Guambe, mandatário do Partido Podemos cujo os resultados preliminares apontam como possível maior partido da oposição nos próximos cinco anos.
Elvino Dias era o principal advogado de Venâncio Mondlane, um fenómeno da cena política moçambicana, na altura, que concorreu como candidato à Presidência da República nas eleições de 2024. A equipa de Venâncio Mondlane nunca concordou com os resultados eleitorais e lutavam em todas as frentes para justiça eleitoral, exigindo a vitória a todo o custo. de entre as frentes de luta a questão legal era das armas mais letais e chefiadas por Elvino Dias.
Elvino Dias foi um advogado intrépido, que enfrentou o poder e defendeu as suas convicções sem se intimidar; um critico implacável das injustiças.
No momento do assassinato o país vivia um clássico filme de espiões com o ponto mais alto do drama na madrugada de sábado quando Elvino Dias foi encontrado morto, crivado com mais de 20 balas na sua viatura, na Avenida Joaquim Chissano, nas proximidades da zona de Pulmão, na Malhangalene. Com Elvino Dias estava Paulo Guambe, também crivado de balas, que, segundo testemunhas, perdeu a vida (Paulo Guambe) momentos depois da chegada da polícia. Nos relatos também uma mulher sentada no banco de trás que perdeu a vida mais tarde no hospital.
Testemunha ocular entrevistado pelo CDD contou como tudo aconteceu. Segue a transcrição: vinha um carro, BMW, que estava sendo seguido por dois carros Mazda, modelo BT50. Logo que o carro BMW chegou aqui (perto Primavera, avenida Joaquim Chissano) foi interpelado.
Um carro bloqueio pela frente e outro bloqueio por trás. Começaram por trabalhar nas duas portas (frontais). Dois jovens. Um estava disparar do lado direito – do motorista e o outro estava a disparar do outro lado. Dispararam mais de 20 tiros. Após terminarem um carro desceu pela avenida e o outro subiu pela avenida.
Alvejaram igualmente uma moça que estava no banco de trás. A Polícia chegou 1h depois. Quem estava no volante, Elvino Dias, morreu no momento. Quem estava do lado, Paulo Guambe, levou um tempinho tendo morrido no local, sem apoio da Polícia. “pedimos a Polícia para levar a pessoa para a ambulância e a Polícia não levou aquela pessoa para a ambulância, eles negaram levar, e a pessoa acabou perdendo a vida ali no carro, trancado”, explicou a testemunha ocular.
No local a ambulância levou a moça que, na ocasião diz-se ter sofrido ferimentos leves, mais tarde perdeu a vida no hospital. A mulher que faz a terceira morte perdeu a vida igualmente em circunstâncias estranhas. Antes da morte um médico falou à imprensa que a mulher estava fora do perigo e que poderia ter alta ainda naquele sábado.
O assassinato do advogado Elvino Dias rapidamente foi associado ao contexto político que o País vivia, e vive. Alguns dias antes da morte o advogado do povo fez uma denúncia na rede social do Facebook sobre um plano dos esquadrões da morte para lhe tirar a vida e a do Venâncio Mondlane.
Os partidos políticos com assento parlamentar e os extraparlamentares assumiram que a causa do assassinato de Elvino Dias e Paulo Guambe foi movida por motivos políticos, consideraram o acto como uma afronta direta aos princípios fundamentais de respeito à vida e à dignidade humano, valores que todos devem proteger. Os partidos políticos instaram as autoridades a investigar bem e explicar aos moçambicanos o que pode ter acontecido e não se precipitar e dar justificações pouco prováveis.
Na ocasião a Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM) sublinhou “não temos dúvidas que esta morte está associada à sua actividade enquanto advogado. Demostramos o nosso profundo repudio como classe. Vamos realizar nos próximos dias, várias actividades condicentes ao esclarecimento deste assassinato.
O director executivo do Centro Para Democracia e Direitos Humanos (CDD), Adriano Nuvunga, disse que as mortes de Elvino Dias, advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane e principal assessor jurídico da CAD/PODEMOS e do Paulo Guambe, mandatário do PODEMOS nas Eleições Gerais visavam lançar certa instabilidade no país em benefício de algumas pessoas. “Esta morte visa lançar caos no País, porque há pessoas que se beneficiam deste caos”, disse Adriano Nuvunga, em 2024, durante a deposição de flores no local onde ocorreu o baleamento de Elvino Dias e Paulo Guambe.
“A luta que Elvino Dias defendia, já não é somente do PODEMOS, nem do Venâncio Mondlane, mas do povo moçambicano. Espero que continuemos com a luta de Elvino Dias para dignificar o sangue derramado por ele. Que fiquemos de pé e, fazemos desta luta como de todos do Rovuma ao Maputo”, disse Nuvunga.
Disse em 2024. Quem acompanha a politica e os direitos humanos em Moçambique certamente há-de concordar que Adriano Nuvunga está cumprindo com a palavra.
Dois anos sem Elvino Dias, moçambicanos individualmente e de forma colectiva bem como organizações juntaram-se para mais uma vez dizer: Adeus Combatente Elvino Dias.