Na Fundação Fernando Leite Couto, António Silimo transforma brincadeiras como neka, berlinde e papagaio num retrato vivo de uma infância que formava pessoas : longe dos ecrãs.
Texto: Bernardo Soares
Há exposições que mostram. E há exposições que devolvem. “Memórias da minha infância”, de António Silimo, pertence à segunda categoria: não se limita a expor imagens: restitui experiências. Ao atravessar as 24 obras reunidas, o visitante não observa apenas cenas do passado; reconhece nelas uma arquitectura invisível de formação humana.
Produzidas entre 2019 e 2025, com forte incidência no último ano, as peças organizam-se como uma crónica visual de um tempo em que brincar era uma prática total: física, social e emocional. Antes da mediação tecnológica, o corpo era o primeiro território de aprendizagem e o espaço público, a sua extensão natural.
Silimo não romantiza esse passado. Em “Crianças em frente do Gato Preto”, a Mafalala aparece na sua materialidade , madeira, zinco, proximidade, sem idealização. O que a obra fixa não é a carência, mas a densidade das relações que nela se inscrevem.
A escolha do papelão como suporte reforça essa lógica de ressignificação. Material residual, destinado ao descarte, é reintroduzido como superfície de criação. No texto “Vidas em recorte”, Eduardo Quive observa que o gesto artístico de Silimo começa antes da pintura: está na recolha, na atenção ao que fica para trás, na devolução desses fragmentos com forma e sentido. A obra torna-se, assim, simultaneamente imagem e processo.
Ao definir-se como “contador de estórias”, Silimo desloca o foco do individual para o colectivo. “Memórias da minha infância” não é um arquivo privado , é uma memória partilhada, onde várias infâncias se cruzam. E é precisamente nessa intersecção que a exposição encontra a sua força contemporânea: não propõe regressar ao passado, mas reconsiderar o presente.
Entre papagaios, xingufu, maberlindes e rodinhas, desenha-se uma cartografia afectiva que resiste ao tempo. O que está em causa não é a oposição simplista entre tecnologia e tradição, mas uma pergunta mais exigente: o que acontece a uma sociedade quando perde formas espontâneas de aprendizagem colectiva?
Biografia do artista
António Silimo nasceu em Maputo, a 24 de Junho de 1986. Formou-se artisticamente na Casa da Cultura do Alto Maé e no Núcleo de Arte, consolidando um percurso autodidacta iniciado publicamente em 2014.
Participou em diversas exposições colectivas e foi distinguido com menção honrosa no concurso Musarte (2016). As suas obras integram colecções em Moçambique, Portugal, Brasil e Suécia. Em 2026, apresenta a sua primeira exposição individual.