A Renúncia que Ninguém Pediu ou a Demissão que Ninguém Quer Assumir?

Por: Caetano Melhor

Há uma arte que a política moçambicana aperfeiçoou ao longo das décadas, transformar demissões em renúncias e ordens em decisões pessoais. É uma espécie de alquimia institucional onde a verdade entra pela porta dos fundos e a narrativa oficial sai pela porta principal, impecavelmente engomada.

Foi precisamente esse exercício que voltou ao palco com a inesperada saída da governadora de Gaza, Margarida Mapandzene. Questionado sobre o assunto, o Presidente da Republica respondeu com aparente serenidade “O mais lógico seria perguntar à pessoa que renunciou.”

A frase parece sensata. Mas só parece, porque a lógica política em Moçambique raramente coincide com a lógica das palavras. O Presidente da FRELIMO pede que se pergunte à governadora. Entretanto, faz questão de recordar que, no partido, as decisões são tomadas por órgãos colectivos, obedecem aos Estatutos e não dependem da vontade de uma única pessoa.

Então, afinal, em que ficamos? Se tudo é decidido colectivamente, como pode uma saída desta dimensão ser apresentada como um acto exclusivamente individual? Ou a governadora decidiu sozinha ou alguém decidiu que ela já não reunia condições para continuar, porque a narrativa da casa é aquela que não basta você quere é preciso nós querermos para você querer, As duas versões dificilmente cabem na mesma sala sem que uma empurre a outra pela janela.

Mais curioso ainda é o silêncio. Em qualquer democracia madura, renúncia de um governador desencadeia uma conferência de imprensa, um comunicado detalhado ou, no mínimo, uma explicação pública. Aqui, produz apenas um vazio cuidadosamente administrado. E o vazio, em política, nunca permanece vazio durante muito tempo.

É imediatamente ocupado pelas perguntas, a primeira delas é inevitável. Esta saída tem alguma relação com os acontecimentos que marcaram a província durante o período das cheias? Não há, até ao momento, qualquer confirmação oficial de que exista essa ligação. Mas também não existe uma explicação pública que a afaste.

E quando um Governo escolhe não esclarecer, acaba por alimentar precisamente aquilo que diz combater, a especulação.

As imagens das cheias ainda permanecem na memória colectiva. Famílias desalojadas. Infra-estruturas destruídas. Reclamações sobre a resposta institucional. Críticas à capacidade de coordenação. Questionamentos sobre a gestão da crise. O desgaste político existiu. Negá-lo seria insultar a inteligência dos moçambicanos.

Será coincidência que, meses depois, a principal figura política da província abandone o cargo? Pode ser. Mas a coincidência também exige explicações. E estas continuam escondidas atrás das cortinas da conveniência política.

Não deixa de ser interessante comparar este episódio com o caso de Pio Matos. Também nessa altura surgiram justificações oficiais, reorganizações administrativas e discursos cuidadosamente preparados. Também nessa altura muitos acreditaram que havia mais perguntas do que respostas. Também nessa altura se percebeu que, em Moçambique, as mudanças de dirigentes raramente chegam acompanhadas de toda a verdade.

Mudam-se os nomes. Repete-se o método. Aliás, convém fazer uma pergunta simples. Quantos governadores, ministros ou dirigentes de topo da FRELIMO pediram efectivamente demissão por iniciativa própria?

A lista é tão curta que quase cabe num postal. A cultura política dominante nunca incentivou a renúncia como gesto de responsabilidade. Pelo contrário. Assistimos inúmeras vezes a dirigentes permanecerem nos cargos mesmo depois de escândalos, crises administrativas, denúncias públicas ou graves falhas de governação, Nunca faltou resistência para permanecer, por isso, quando surge uma renúncia espontânea, o espanto torna-se inevitável.

Não porque seja impossível, Mas porque não corresponde ao padrão histórico. É precisamente essa ausência de precedentes que transforma a versão oficial numa narrativa difícil de aceitar sem reservas.

O mais inquietante, porém, não é a saída da governadora. É a facilidade com que se pede ao país que aceite explicações incompletas como se a confiança dos cidadãos pudesse sobreviver, apenas com frases cuidadosamente construídas.

Como se bastasse dizer “perguntem à pessoa” para que desaparecesse a responsabilidade institucional.

Governadores não administram apenas províncias. Representam o Estado. E quando deixam funções, o Estado também deve satisfações aos cidadãos. O silêncio institucional não protege ninguém. Pelo contrário, Fragiliza quem governa, fortalece quem desconfia e alimenta uma cultura onde a transparência continua a ser tratada como favor, quando deveria ser obrigação.

Talvez Margarida Mapandzene tenha realmente decidido sair por vontade própria. É uma possibilidade legítima. Talvez tenha sido uma decisão exclusivamente pessoal, também é possível não se pode descartar esta possibilidade.

Mas enquanto essa versão não for explicada pela própria ou esclarecida pelas instituições, continuará a existir uma dúvida que nenhuma frase protocolar conseguirá apagar, porque há uma diferença enorme entre uma renúncia livre e uma renúncia provocada por circunstâncias políticas, e essa diferença não desaparece apenas porque o comunicado escolheu uma palavra mais elegante.

No fim, a maior vítima desta história não é apenas uma governadora que saiu. É uma cultura política que continua a acreditar que o cidadão deve contentar-se com o silêncio, aceitar narrativas incompletas e fingir que não percebe quando uma demissão veste o fato de uma renúncia.

Afinal, em Moçambique, as palavras mudam com facilidade o que continua difícil de mudar é o hábito de explicar a verdade aos moçambicanos, talvez seja precisamente por isso que, sempre que um dirigente “renuncia”, o país inteiro começa imediatamente a perguntar Foi uma Renúncia ou foi uma demissão que ninguém quer Assumir?

Comentários (0)
Adicionar comentário