
O político Venâncio Mondlane defendeu esta terça-feira que o Dia dos Heróis Moçambicanos, oficialmente celebrado a 3 de Fevereiro, não representa os verdadeiros heróis do povo, afirmando que a sua celebração legítima “ainda não chegou” e deverá ocorrer apenas no próximo mês.
A posição foi expressa numa publicação divulgada nas redes sociais, na qual Mondlane classifica a data como o “dia dos heróis impostos”, argumentando que a narrativa oficial da História nacional tem ocultado práticas de violência e exclusão associadas à elite que conduziu a luta de libertação e governa o país desde a independência.
Segundo o político, à medida que a História “vai se desvendando”, emergem factos que colocam em causa o simbolismo atribuído aos heróis oficialmente consagrados. Mondlane recorre a referências culturais e históricas para sustentar a sua crítica, evocando o músico Azagaia e o álbum Os Cortadores de Lenha, no qual a expressão “cortar lenha” surge como metáfora para execuções sumárias durante a luta de libertação.
Na publicação, Mondlane cita o antigo dirigente Mariano Matsinhe, a quem atribui a afirmação de que, no seio da Frelimo, “era norma fuzilar”, sublinhando que o termo “norma” indicaria uma prática institucionalizada. Refere igualmente o académico João Mosca, que terá descrito essa herança como parte do “ADN da Frelimo”.
O político estabelece uma ligação directa entre esse passado e fenómenos contemporâneos, apontando crimes como corrupção, desvio de fundos públicos, tráfico de drogas, prostituição infantil, tráfico de pessoas e órgãos humanos, sequestros, raptos, ameaças e alegada captura do sistema judicial como práticas que, no seu entendimento, se tornaram estruturais no regime. As acusações são apresentadas sem indicação de provas concretas na publicação.
Mondlane afirma ainda que Moçambique teria servido de esconderijo para grandes traficantes internacionais, em alegada parceria com sectores do poder político, reforçando a sua crítica ao discurso oficial que descreve o regime como libertador, nacionalista e patriótico.
No plano simbólico, o político dirige fortes críticas à Cripta dos Heróis, que descreve como um espaço esvaziado de significado popular e distante do povo. Segundo escreve, o local transformou-se num palco de exibição de elites políticas e sociais, onde “gravatas, fatos modernos e perfumes caros substituíram o povo”.
Para Mondlane, a Cripta converteu-se numa “passerelle de marcação de presença” de actores que procuram legitimação política, enquanto o povo permanece indiferente às cerimónias oficiais.
Na conclusão da mensagem, o político sustenta que o verdadeiro Dia dos Heróis do Povo Moçambicano será celebrado noutra data, apontando simbolicamente para o próximo mês, num gesto interpretado como contestação directa ao calendário e à narrativa histórica oficial do Estado.
A publicação termina com um apelo nacionalista: “Este país é nosso. Salve Moçambique”.