Jornalismo ao pormenor

Radjha Ally: “Levo a minha cultura, origens e tradições”

NO FESTVAL AU FIL DES VOIX EM PARÍS

Abrir a 19.ª edição do festival Au fil des voix, em Paris, na França, é para Radjha Ally um acto que conjuga prazer e responsabilidade. Convidado através da sua label francessa Accords Croisés, e único representante de Moçambique no cartaz, o músico assume o palco europeu consciente do peso simbólico do momento. “Não gosto muito dessa posição de abrir ou encerrar um festival, porque as expectativas das pessoas são sempre muito grandes ”, confessa, sublinhando, contudo, a determinação em “fazer o máximo” para representar o país.

Para o Radjha Ally, o diálogo com a identidade do Au fil des voix nasce precisamente da autenticidade: um festival onde cada participante leva a sua marca cultural e onde a sua música se inscreve como expressão da tradição moçambicana, reinterpretada no contexto da música contemporânea internacional.

No concerto de abertura, o público parisiense vai ouvir Moçambique na sua pluralidade. O artista propõe uma narrativa musical que atravessa tanto a riqueza cultural do país como os seus momentos de dor. As cheias que afectam o Sul e o Centro e o conflito em Cabo Delgado atravessam o seu imaginário artístico, não como discurso exterior, mas como parte da própria condição do país.

“Nas minhas músicas e danças, tento sempre descrever Moçambique como ele é”, explica, defendendo uma abordagem que reconhece que todas as nações ( desenvolvidas ou não) — transportam simultaneamente luz e sombra. A sua actuação pretende, assim, expor o “lado bom” e os momentos difíceis, integrando-os numa mesma paisagem humana e cultural.

Mais do que um concerto, o músico encara esta presença como uma exposição simbólica de Moçambique no espaço internacional. O desejo é provocar curiosidade, despertar perguntas, suscitar vontade de conhecer o país. Num festival onde se cruzam múltiplas culturas, o seu objectivo é claro: levar Moçambique para o centro do diálogo artístico.

Psicologicamente, encara a estreia parisiense com serenidade, privilegiando o cuidado físico e vocal como forma de preparação. Artisticamente, sobe ao palco para apresentar o seu mais recente álbum, “Niinee”, um trabalho que cruza ritmos sobretudo do Norte e do Centro do país e que, neste contexto, funciona como plataforma de expansão da sua música. Para o artista, este concerto não é apenas uma apresentação internacional, mas a afirmação de um percurso que continua a construir-se na fidelidade às origens e na vontade de projetar Moçambique para além das suas fronteiras.

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