
OMR prevê fome aguda e aumento do desemprego no sul após cheias
As águas ainda não recuaram, mas o alerta já é de emergência alimentar. O Observatório do Meio Rural (OMR) avisou que o sul de Moçambique poderá entrar, já nos próximos meses, num cenário de “fome aguda” e agravamento do desemprego, na sequência da destruição massiva de campos agrícolas e da perda de milhares de cabeças de gado provocadas pelas inundações.
O aviso, feito em Maputo pelo analista do OMR, João Feijó, projecta uma crise que vai além do impacto imediato das cheias e antecipa um efeito dominó sobre a economia rural, a segurança alimentar e a estabilidade social. Segundo o investigador, a ajuda alimentar actualmente disponível poderá apenas amortecer a situação no curto prazo. “No final do próximo mês vamos atingir problemas de fome aguda”, advertiu, acrescentando que a redução do apoio humanitário internacional agrava a vulnerabilidade das populações que dependem quase exclusivamente da agricultura de subsistência.
As cheias não atingiram apenas culturas. Destruíram também os próprios meios de produção: alfaias, silos, sistemas de transporte e canais de escoamento. Para comunidades sem seguros agrícolas, cada machamba submersa representa não só a perda de alimento, mas a anulação da principal fonte de rendimento. “A área afectada é monstruosa. Isto é um prejuízo enorme em termos de rendimento e de provisão de alimentos”, sublinhou Feijó, apontando para um ciclo de empobrecimento acelerado.
Os números oficiais do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres confirmam a dimensão estrutural do choque: 165.841 hectares de área agrícola afectados, dos quais 73.695 hectares considerados perdidos, comprometendo directamente a sobrevivência de 111.535 agricultores. No sector pecuário, 38.770 cabeças de gado, entre bovinos, caprinos e aves, foram dadas como mortas, eliminando poupanças familiares acumuladas ao longo de anos.
Para o OMR, a perda de gado e de património agrícola terá efeitos que ultrapassam a esfera económica. Significa erosão de capital social, aumento do desemprego rural, crescimento da mendicidade e maior pressão sobre os centros urbanos. “Muitos vão passar a viver como mendigos. Isto vai aumentar a insegurança pública e juntar-se ao problema dos preços alimentares”, advertiu o analista.
Feijó antevê, por isso, um período de forte instabilidade social nos próximos meses, marcado pela expansão da precariedade. A comparação com as cheias de 2000 reforça a gravidade do cenário: hoje, o país tem mais população, maior dependência dos mercados e menos margem de resposta humanitária internacional. “Os impactos sociais vão ser maiores em termos numéricos e em termos de destruição do património”, frisou.
Este quadro socioe-conómico agrava-se num contexto em que o balanço humano das chuvas continua a subir. Segundo o INGD, 112 pessoas morreram, três permanecem desaparecidas e 99 ficaram feridas desde o início da presente época chuvosa.
O alerta do OMR desloca o foco da emergência: das cheias visíveis para a crise silenciosa que se avizinha, onde a ausência de colheitas, de gado e de rendimentos poderá transformar a catástrofe climática numa crise alimentar prolongada, com consequências profundas para a coesão social e a segurança do país.