
Há canções que atravessam o tempo como rios subterrâneos: invisíveis na pressa do dia-a-dia, mas pulsando fundo na memória de um povo. “Na Ku Randza”, clássico de Gito Baloi, é uma dessas melodias que carregam amor, saudade e pertença. Hoje, esse rio reaparece à superfície pelas mãos de Moreira Chonguiça, saxofonista, etnomusicólogo e embaixador cultural de Moçambique, que lança uma versão reimaginada da canção como segundo capítulo da sua trilogia musical em homenagem a artistas marcantes da nossa história.
A escolha não é casual. O ano em que Moçambique celebra meio século de independência pede vozes fundadoras, espíritos que abriram caminho. Gito Baloi, cofundador do mítico trio sul-africano Tananas, foi um desses visionários: voz doce, universal, que soube transformar a dor do exílio e a travessia da fronteira em pontes sonoras entre povos.
Moreira não caminha sozinho. Convida Pauleta Muholove, jovem vocalista em ascensão, que empresta frescura e intensidade à obra. O diálogo entre o saxofone maduro e a voz vibrante traduz-se numa fusão de gerações – de quem abriu a estrada e de quem agora a percorre. “Na Ku Randza” preserva a alma do original de Baloi, mas ganha a textura contemporânea da produção de Chonguiça, sem nunca perder o compasso da ternura.
O cenário escolhido para o videoclipe não podia ser mais simbólico: a Estação Central dos Caminhos de Ferro de Maputo, edifício centenário que carrega na sua arquitetura a memória de partidas e regressos. Durante décadas, foi deste ponto que partiram homens para as minas da África do Sul, levando no peito saudade das famílias e o peso de um País em construção. Ao filmar “Na Ku Randza” nesse espaço, Chonguiça não apenas evoca o amor, mas também a viagem, a ausência e a resiliência de um povo que nunca deixou de cantar.
“Gito Baloi abriu o caminho para muitos de nós”, sublinha Moreira. “Esta canção é a minha forma de manter viva a sua música, de oferecê-la às novas gerações, enquanto refletimos sobre o percurso que fizemos como nação.”
Depois do sucesso de “Dá ou Não Dá”, com Mr. Kuka, Chonguiça prossegue com esta trilogia que é, ao mesmo tempo, celebração e manifesto: um olhar para o passado, um diálogo com o presente e uma promessa para o futuro da criatividade moçambicana no palco global.
No sopro de Moreira e na voz de Pauleta, “Na Ku Randza” deixa de ser apenas uma declaração de amor. Torna-se hino de memória, identidade e esperança.