
Greve de jornalistas do Diário de Moçambique expõe fragilidades estruturais da comunicação social
Os jornalistas do Diário de Moçambique (DM) iniciaram, esta manhã, uma greve laboral para exigir o pagamento de salários em atraso, acumulados desde Outubro de 2025. A paralisação, que deverá durar 7 dias prorrogáveis, representa não apenas um conflito laboral pontual, mas um sinal inequívoco da fragilidade estrutural que continua a marcar grande parte das empresas do sector da comunicação social em Moçambique, onde profissionais, paradoxalmente vocacionados para dar visibilidade aos problemas da sociedade, muitas vezes permanecem constrangidos a silenciar as próprias dificuldades.
Num meio historicamente caracterizado por instabilidade financeira, dependência excessiva de publicidade institucional e modelos de negócio frágeis, as reivindicações públicas dos jornalistas do DM quebram um padrão recorrente de contenção interna, em que questões salariais, condições de trabalho e gestão deficitária raramente são debatidas de forma aberta. A greve surge, assim, como um acto de ruptura e de afirmação de dignidade profissional, num sector onde a precariedade se tem normalizado.
O impacto da paralisação é particularmente sensível por atingir um dos mais antigos e simbólicos órgãos de informação do país. Fundado em 1950, na cidade da Beira, o Diário de Moçambique construiu, ao longo de mais de sete décadas, um percurso singular no espaço mediático nacional. Durante o período colonial, afirmou-se como um jornal crítico do regime português; após a sua venda, em 1969, e posterior nacionalização, passou a integrar o património mediático do Estado moçambicano, desempenhando um papel relevante nos processos políticos, sociais e culturais que marcaram o país.
Para além da sua densidade histórica, o DM mantém um estatuto singular: é o principal diário público sediado fora da capital e o único jornal físico diário produzido fora de Maputo, o que lhe confere uma função estratégica na descentralização da informação, na representação das dinâmicas do Centro do país e na construção de um espaço público menos concentrado.
A actual crise laboral, porém, lança luz sobre fragilidades persistentes ao nível da gestão e do compromisso institucional com os trabalhadores. A privatização ocorrida entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000, a favor da Académica e do Grupo Sidat, detido pelo empresário Maomed Sidat, não produziu os efeitos estruturantes esperados. Pelo contrário, diversos sinais indicam o agravamento de problemas financeiros, administrativos e laborais, que hoje se materializam na interrupção da actividade jornalística.
Estado devedor
De acordo com informações disponíveis, o Estado é também o maior devedor, com uma dívida estimada em cerca de 25 milhões de meticais. Esta condição fragiliza a sustentabilidade da empresa, compromete a autonomia editorial e levanta sérias interrogações sobre o modelo de relação entre o poder público e os órgãos de comunicação social.
A greve no Diário de Moçambique ultrapassa, por isso, a dimensão corporativa. Ela convoca um debate mais amplo sobre o futuro da imprensa, a dignidade do trabalho jornalístico e a necessidade de reformas profundas no sector, sob pena de se assistir ao enfraquecimento progressivo de instituições que estruturam a memória, a pluralidade e a vida democrática.
Entretanto, o Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) manifestou solidariedade com os trabalhadores. Em comunicado, o Secretariado Provincial do SNJ em Sofala afirma ter tomado conhecimento “da dolorosa e extrema decisão de paralisar a actividade laboral” e considera os fundamentos da greve “fortes e firmes”. O sindicato apela aos accionistas da empresa, incluindo o Estado moçambicano, para que encontrem, com urgência, uma solução através de “diálogo directo, franco e honesto, em salvaguarda do interesse público”.
O SNJ reiterou ainda a sua disponibilidade para mediar o processo, com vista à resolução do impasse e à retoma da actividade na Sociedade Comercial Notícias da Beira, editora do Diário de Moçambique. Enquanto isso, a paralisação permanece como um sinal de alarme: não apenas sobre uma empresa em crise, mas sobre um sector que continua a funcionar em condições de vulnerabilidade estrutural e silêncio forçado.