
Por Bernardo Soares
Eram cinco horas da manhã desta terça-feira quando, no silêncio que antecede o dia, percorri os comunicados institucionais que costumam acordar antes do País.
Foi então que encontrei a notícia: o governador da província de Inhambane, Francisco Pagula, inaugurara um estúdio de gravação musical e uma incubadora cultural e criativa na Casa Provincial de Cultura.
A notícia é boa. Ninguém de bom senso pode ser contra um estúdio para músicos ou contra um fundo que apoie artistas. A cultura, em Moçambique, precisa de mais portas abertas e menos promessas.
Mas, ao terminar a leitura, fiquei com uma pergunta atravessada na cabeça – dessas que não fazem barulho mas incomodam. Precisava mesmo o governador de ir inaugurar uma mesa de som?
Talvez o problema não seja o acto. Talvez seja a liturgia do poder.
Entre nós, governar parece exigir sempre uma fita para cortar. Sem fita, parece que o acto público perde importância. Sem fotografia oficial, o acontecimento quase não aconteceu.
E assim seguimos: inaugurando tudo. Inaugura-se um edifício – compreende-se.
Inaugura-se uma estrada – faz sentido. Inaugura-se uma ponte – justifica-se. Mas agora também se inaugura estúdio de gravação, sala equipada, computador novo, mesa de som. Se continuarmos neste ritmo, qualquer dia inauguraremos extensão eléctrica com direito a discurso.
O curioso é que o Estado possui uma arquitectura administrativa precisamente para evitar esse excesso de centralidade. Existem directores provinciais, chefes de departamento, gestores de instituições públicas. Eles existem para dirigir, decidir e representar.
Um estúdio numa casa de cultura poderia ser inaugurado tranquilamente pelo director provincial de Cultura ou pelo responsável da própria Casa de Cultura. Seria natural. Seria lógico. Seria institucional.
Mas não.
Mobiliza-se protocolo, agenda oficial, assessores, comunicação institucional e toda a coreografia administrativa que acompanha a presença da figura máxima da província.
Tudo isso para inaugurar um estúdio. Não é um problema de Inhambane. É quase uma tradição política africana que insiste em sobreviver ao tempo. Presidentes inauguram torneiras de água. Governadores inauguram pequenas infra-estruturas administrativas.
Ministros inauguram projectos que caberiam perfeitamente na agenda de um director nacional.
Às vezes parece que o Estado africano se tornou especialista em cerimónias de inauguração, como se governar fosse uma sucessão interminável de fotografias com tesouras e fitas coloridas.
Se a lógica continuar assim, não será absurdo imaginar que um dia chefes de bairro inaugurem casas particulares como grande feito do quarteirão.
Mas deixemos a ironia de lado por um instante. Há perguntas mais importantes do que a fotografia da inauguração.
Quanto custou o equipamento do estúdio? De onde vieram os recursos para a sua aquisição? E como funcionará exactamente o anunciado fundo de apoio às iniciativas artístico-culturais? Qual é o seu valor total? Quem pode candidatar-se? Qual é o tecto de financiamento por projecto?
Essas respostas talvez sejam mais úteis para os artistas do que qualquer cerimónia. Porque, no final das contas, o que realmente importa não é quem corta a fita. O que importa é saber se o estúdio vai funcionar, se os músicos de Inhambane vão gravar ali as suas canções, e se o fundo anunciado vai realmente apoiar a criatividade local.
Se isso acontecer, então o estúdio será uma boa notícia. Mas, com todo o respeito institucional, senhor governador, talvez seja tempo de libertarmos o poder de certas cerimónias.
Afinal, governar uma província é uma tarefa grande demais para ser interrompida por uma mesa de som.