Jornalismo ao pormenor

 Ferramentas para desmontar a noite 

Inventário de despojos

Texto : Elton Pila

 Outra vez, a noite, que já muitas vezes tingiu com as cores da angústia a palavra poesia. A noite – metafórica e concreta – parece esta mão a abrir a caixa de pandora, como se o silêncio deixasse-nos ouvir as vozes dos fantasmas internos, que afinal – talvez percebamos espantados – são também colectivos.

Japone Arijuane (Zambézia, n.1987) neste “Ferramentas para desmontar a noite” (FFLC, 2020) coloca-nos nesta paisagem-sentimento-tempo, em que a noite se afigura num espaço de ruminação de frustrações, medos, angústias, que nem o amor com cheiro a mofo a que chamamos saudade salva. E talvez por isso o verbo – “desmontar” – na sua potência de acção.

A “noite” aqui invocada como metáfora torna-se física, concreta, com a referencialidade que reconhecemos e que talvez passe à margem a um leitor mais distante. O segundo caderno “Ferramentas para desmontar a noite de Junho” é o escancarar da grande ferida, depois do “ABC para pôr as mãos na massa”, a primeira parte com três poemas-provocações que já estabelecem o jogo de linguagem que o título insinua. “a noite é navalha a verter incertezas/lâmina viva plantada na carne do vento/ voz incendiada nas falas do cifrão/” (pág.12). É desta hipálage que Ana Mafalda Leite fala no prefácio que assina para o livro, a ferramenta maior na edificação poética de Japone nesta obra. Junho marca a saída da grande noite, para usar uma imagem que nos foi dada a ver por Achille Mbembe. Os novos tempos anunciados pelos ventos a pesar sobre a bandeira içada na hora zero nunca chegar(i)am. E a voz que se levanta nestas páginas é como se fizesse um inventário dos despojos. A poesia não pode ser alheia ao seu tempo, como disse a escritora portuguesa Ana Luísa Amaral. E Japone parece atento a este tempo, mesmo quando enuncia no “eu” individual resvala sempre para o “nós” colectivo.

Neste livro, diferente do primeiro, “Dentro da pedra ou a metamorfose do silêncio” (Literatas, 2014), encontramos uma voz mais comprometida com o carácter político da poesia, uma dimensão sempre olhada de soslaio como se fosse um regresso a um tempo em que a caneta descansava no coldre e era erguida para o que ficou conhecida como poesia de combate. Mas não, Japone faz da revolta matéria, ciente de que é poesia, é Literatura, sem o panfletarismo castrante das mãos pesadas que semearam os versos de fome. Fá-lo como se pegasse o remo dos que chegaram antes dele e mostraram outros caminhos para o mar. “É preciso amadurecer o sol/reiventá-lo às costas da noite”, (pág.25) remete-nos – no que o academicismo chama de intertextualidade – a Armando Artur, poeta nascido na mesma Zambézia: “é urgente inventar/ novos atalhos/acender novos archotes/ descobrir novos horizontes”(Espelho dos Dias, 1986). Inventar futuro continua a ser urgente.

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