Jornalismo ao pormenor

Entre o riso e o …

Ungulani Ba Ka Khosa

Tenho tentado manter-me um pouco distante neste ano primeiro do mandato do Presidente Chapo, mas as sucessivas e penosas crónicas e notícias dos últimos tempos tiram-me do sério.

Vem-me à memória o que o presidente prometeu na tomada de posse: reduzir a pesada máquina governativa, com enfoque nos perdulários secretários de estado provinciais. Alguns membros da comissão do diálogo inclusivo, o chamado COTE, vieram, recentemente, a público informar que a etapa que se segue é ir ao campo, ao Moçambique profundo, auscultar as sensibilidades dos camponeses e seus representantes. Ri-me, e lembrei-me, salvas as devidas distâncias, dos marxistas da Sommerschield e da Polana, em finais dos anos 80, andando, em quimeras peregrinações, perguntando se queríamos ou não continuar com um país de Partido único. Agora pergunto: É necessário pedir dinheiro (que iremos pagar com juros) aos parceiros de cooperação para questionar, entre outros itens, aos cidadãos, se os secretários de estado provinciais constituem uma carga ou não no orçamento e na governação descentralizada? Precisamos de uma legislatura inteira para andar de província em província, perguntando aos cidadãos sobre a necessidade de despartidarizar a máquina do Estado? Desculpem lá, não somos mentecaptos!

O grande problema deste país está, entre outras coisas, na ausência de uma classe média forte e independente. Todos, do intelectual ao cidadão médio, entregam-se, em sucessivas poses genuflexivas, aos poderes instalados no país. Sem estabilidade financeira, e nem independência de pensamento, procuram, sem decoro, agendas para agradar o governo do dia, tornando-se, uns, entre outras coisas, empresários piratas, outros, memorialistas ao serviço das elites, deixando, em consequência, a pátria e os desígnios da nação, debaixo da almofada. E como as classes médias, nesta pátria do Índico, nascem e morrem em cada legislatura, estes fulanos procuram, afincadamente, posicionar-se, em espaço privilegiado, na fotografia do novo dirigente. É a oportunidade de se ter mais algum. Isto é ominoso para o país!
A comicidade desta ignominia tem-se visto no achincalhamento público e doentio a um dirigente da oposição – por sinal, um indivíduo que vem, com abnegação, há mais de vinte anos, construindo um discurso político não mimético. Recordo-me, para avivar algumas memórias, salvaguardadas as distâncias, do aviltamento de uns e o silêncio cobarde de outros, ao nacionalista Domingos Arouca, por este se demarcar das práticas discursivas do poder vigente. E todos estes fulanos (os de ontem e hoje), prosélitos da agenda do dia, nunca ficam indignados quando veem um ex-edil, condenado em juízo por práticas de corrupção, designado representante do estado numa empresa pública; e muito menos constrangidos ficam quando uma população faminta desce à baixa de Xai-Xai à busca de alimentos deteriorados pelas recentes cheias para saciar a fome (e que dizer das populações carentes do interior mais profundo?). Ninguém pergunta pela competência e celeridade do INGD na resolução dos problemas. Para eles, os casos de corrupção que adormecem, em recurso no supremo, há mais de dez anos, não é preocupação! A manifesta estultícia de um governador sobre as nossas línguas nacionais não é motivo de análise; o declarado nepotismo de um outro dirigente provincial não entra na agenda, pois é algo passageiro. Que estado queremos erguer?

Não basta dizer: Vamos trabalhar!

Fevereiro de 2026
Ungulani Ba Ka Khosa

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