Jornalismo ao pormenor

Entre cliques e vaidade: Qualidade de Jornalismo reduzida a uma simples votação on-line

Texto: Pascoal Malate

Escrevo com um nó no coração. O Jornalismo – profissão milenar e pilar da democracia moderna – tem sido, ao longo dos séculos, a voz que questiona, revela e ilumina os caminhos sombrios da sociedade. É uma vocação que se ergue sobre o rigor, a ética e o compromisso com a verdade.

No entanto, o que se observa nos últimos tempos é uma preocupante tendência de banalização desta profissão. Um exemplo recente disso são certas formas de premiação que reduzem a excelência jornalística a um mero concurso de popularidade.

Sempre aprendi que os trabalhos jornalísticos devem ser avaliados por um júri de reconhecido mérito, composto por profissionais com experiência e autoridade moral na área. É assim que se preserva a credibilidade e a dignidade de uma profissão que, desde sempre, se orienta pelo mérito e pela verdade factual.

Por isso, causa profunda estranheza ver iniciativas que classificam jornalistas e apresentadores através de votações públicas- um mecanismo que, embora democrático em aparência, fere a essência do Jornalismo, que não é uma competição de simpatia, mas de qualidade, rigor e impacto social.

A Gala Media Club Awards 2025, que em princípio deveria ser um espaço de exaltação ao mérito, corre o risco de ser recordada como um exercício de promoção pessoal e de favoritismos. Pior ainda: há indícios de interferência na escolha de alguns programas e profissionais nomeados, o que levanta sérias dúvidas sobre a transparência do processo.

A suspeita de que certos nomes foram previamente escolhidos para receber distinções mina não apenas a credibilidade da premiação, mas fere também a dignidade de todos os que fazem jornalismo com seriedade e entrega.

Os apresentadores de noticiários, por exemplo, obedecem a um padrão ético e técnico consolidado. Não estão em palco para conquistar aplausos, mas para servir informação com sobriedade e rigor. Avaliá-los por voto popular é ignorar a essência da função e transformar o telejornalismo num concurso de carisma.

O mesmo vale para programas de talk show, cuja qualidade não se mede por curtidas ou aplausos, mas pela profundidade das ideias, pela relevância das discussões e pela contribuição que oferecem ao debate público.

Nada contra a organização da iniciativa – o esforço de valorizar profissionais da comunicação é louvável. Contudo, é preciso discernimento. Premiar jornalismo requer responsabilidade e distanciamento da lógica do espetáculo.

Quando os critérios deixam de ser técnicos e passam a ser movidos por simpatias, influências ou conveniências, o jornalismo deixa de ser um serviço público e transforma-se em entretenimento.

O que se espera, sobretudo quando o projeto é apadrinhado por figuras de reconhecida reputação, é que haja ponderação e zelo pela imagem da profissão.

O jornalismo não pode ser tratado como um jogo de popularidade. Ele é – e sempre será – uma das colunas centrais da democracia. Desrespeitá-lo é abrir espaço para o descrédito e para o enfraquecimento de um dos poucos ofícios que ainda têm como missão dizer a verdade, mesmo quando ela incomoda.

Se for para banalizar algo, que não seja o Jornalismo. Porque, quando o Jornalismo é banalizado, a sociedade perde o seu espelho – e a democracia perde a sua voz.

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