
EDM mobiliza força máxima para repor energia dentro de 48horas
Cabo Delgado às escuras
A província de Cabo Delgado está totalmente sem fornecimento de energia eléctrica, afectando cerca de 210 mil consumidores, após o colapso de uma torre de alta tensão no rio Micuguri, na sequência da subida do caudal provocada pelas chuvas intensas que continuam a cair na região norte do País.
No terreno, o Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Electricidade de Moçambique (EDM), Joaquim Ou-Chim, explicou que a empresa já vinha a monitorar a situação dias antes do incidente.
“No dia 5 ou 6 começámos a ver a subida do caudal e posicionámos as equipas aqui para arranjar soluções de mitigação. Começámos a trabalhar na construção de uma fundação para transferirmos a torre. O que aconteceu é que a fúria das águas foi muito mais veloz e no dia 10 tivemos o colapso da torre”, afirmou.
Com a queda da estrutura, deixou de ser possível fornecer energia a toda a província de Cabo Delgado e ao distrito de Eráti, na província de Nampula, que é alimentado pela mesma linha.
Sem possibilidade de utilizar maquinaria pesada devido às condições de acesso – agravadas pelas chuvas – a EDM mobilizou cerca de 100 homens, metade técnicos da empresa e metade trabalhadores recrutados e treinados localmente.
A solução temporária consiste na instalação de um pórtico de madeira, que permitirá reensarar a linha e restabelecer o fornecimento enquanto decorre a reconstrução definitiva.
“Estamos a trabalhar dia e noite para o mais rápido possível restabelecer o fornecimento de energia eléctrica à província de Cabo Delgado”, assegurou o PCA, sublinhando que os trabalhos chegaram a ser interrompidos por razões de segurança devido a novas chuvas intensas.
Segundo Joaquim Ou-Chim, a operação de reposição imediata representa um custo directo de cerca de 20 milhões de meticais, valor que cobre mobilização de equipas e materiais.
Contudo, a reconstrução definitiva exigirá um investimento significativamente superior.
“Teremos que fazer uma reconstrução definitiva e resiliente. Para tal, contamos desembolsar mais de 50 milhões de meticais para fazer face a esta emergência”, revelou.
O dirigente reconheceu que grande parte das infraestruturas eléctricas foi construída num período em que os fenómenos climáticos extremos não tinham a frequência actual.
“As nossas infraestruturas, muitas delas antigas, não estavam preparadas para os fenómenos extremos que estamos a viver. Estes desastres vieram para ficar.”
Apesar da interrupção generalizada, a EDM está a garantir fornecimento de energia a infraestruturas consideradas críticas.
“Temos encontrado soluções para hospitais, sistemas de comunicação e também sistemas de bombeamento de água. Posicionámos geradores para garantir esses serviços enquanto aguardamos o restabelecimento da linha”, explicou.
O PCA revelou ainda que, nas províncias do sul afectadas por inundações, os danos são expressivos. Só para reposição temporária de infraestruturas danificadas pelas cheias, as estimativas iniciais apontam para cerca de 300 milhões de meticais.
Em Maputo e Gaza, várias infraestruturas continuam submersas, impedindo a reposição imediata do fornecimento por razões de segurança. A utilização de circuitos alternativos tem provocado sobrecargas e avarias pontuais.
“Quando cortamos energia, é por razões de segurança, quer para nós que operamos o sistema, quer para os utilizadores”, frisou.
O colapso da torre no rio Micuguri ocorre num momento em que a EDM afirma estar a implementar um plano nacional de resiliência, focado sobretudo nas chamadas “atravessias de risco”, consideradas pontos críticos das linhas de transporte.
Curiosamente, no local do incidente já decorriam trabalhos de reforço estrutural quando a torre acabou por ceder à força das águas.
O episódio deixa uma mensagem clara: mais do que uma falha pontual, trata-se de um alerta sobre a necessidade de acelerar investimentos estruturais numa rede eléctrica adaptada à nova realidade climática.
Enquanto isso, cerca de 210 mil consumidores aguardam o regresso da energia, numa província onde a estabilidade eléctrica é também um factor crítico para a recuperação económica e social.