
Cheias aceleram modernização da rede elétrica no âmbito do Plano Director da EDM até 2043
A atual época chuvosa está a funcionar como um teste operacional à capacidade de resposta da rede elétrica nacional, levando a Electricidade de Moçambique (EDM) a reforçar intervenções de emergência, acelerar investimentos estruturais e consolidar uma estratégia de longo prazo para o setor energético. Em entrevista exclusiva ao Lupa News, o Director de Distribuição da EDM, Luís Amado, explica como a empresa responde às cheias registadas em várias regiões do País, revela investimentos imediatos na ordem dos 140 milhões de meticais, anuncia um pacote de mais de 600 milhões de meticais para infraestruturas resilientes e apresenta o Plano Director da EDM até 2043, avaliado em cerca de 3 mil milhões de dólares, concebido para modernizar e proteger a rede elétrica face aos efeitos das mudanças climáticas.
Lupa News (Lupa) – Para começar, como é que a EDM avalia o impacto da atual época chuvosa no funcionamento da rede elétrica a nível nacional?
Luís Amado – Esta época chuvosa teve um impacto relevante do ponto de vista operacional, sobretudo devido às cheias que provocaram inundações em bairros, postos de transformação e algumas redes de distribuição. Sempre que há risco para a segurança da população, a EDM opta pelo desligamento preventivo.
À medida que as águas foram baixando, as nossas equipas intervieram e o fornecimento foi sendo reposto. Importa sublinhar que, ao contrário de ciclones, esta situação não foi acompanhada de ventos fortes, o que permitiu preservar grande parte das infraestruturas físicas.
Lupa – Como está actualmente a situação de fornecimento de energia em Cabo Delgado, após a grande avaria registada na região e em Eráti?
Luís Amado – A província de Cabo Delgado teve o fornecimento de energia totalmente restabelecido no dia 13 de Fevereiro de 2026, após a construção de uma torre provisória em madeira. Com esta intervenção, todos os clientes da província voltaram a beneficiar de energia eléctrica.
Lupa – Nos últimos dias têm sido frequentes os cortes de energia na Baixa da cidade de Maputo. O que está a acontecer e que soluções estão a ser implementadas?
Luís Amado – De facto, durante a primeira quinzena registaram-se cortes consideráveis na cidade de Maputo, sobretudo na zona da Baixa. Estes constrangimentos resultaram de avarias cíclicas nos cabos subterrâneos de média tensão, provocadas pelo impacto das chuvas intensas seguidas de períodos de calor elevado.
Importa sublinhar que parte significativa destas infra-estruturas tem mais de 50 anos de uso e apresenta desgaste no sistema de isolamento, o que aumenta a sua vulnerabilidade a falhas em condições climáticas adversas.
Lupa – Quais foram as regiões mais afetadas por estas cheias?
Luís Amado – Tivemos várias frentes de atuação. Em Boane, as descargas do rio Umbelúzi provocaram inundações que obrigaram ao desligamento de zonas de serviço, incluindo a interrupção temporária da travessia para o Zimbabwe.
Em Moamba, a subida do rio Maputo alagou áreas agrícolas e arrastou cerca de 800 metros de linha, afetando agricultores e algumas comunidades.
Posteriormente, a subida dos rios Limpopo e Changane afetou de forma significativa a cidade de Chókwè, que é estruturalmente baixa. Apesar de a subestação de Lionde não ter sido inundada, vários postos de transformação ficaram submersos. Neste momento, dos 126 postos de transformação da área de serviço, cerca de 100 já foram energizados, resultado do trabalho contínuo das equipas no terreno.
Lupa – Comparativamente a anos anteriores, esta época chuvosa foi mais exigente para a EDM?
Luís Amado – Foi mais exigente do ponto de vista do risco e da extensão geográfica das cheias. No entanto, em termos de destruição física, foi uma situação mais controlada quando comparada com grandes ciclones.
Estamos a falar de cerca de 28 a 30 quilómetros de rede de média tensão danificados e aproximadamente 10 postos de transformação, números que permitem uma reposição relativamente rápida, sobretudo quando comparados com eventos extremos do passado.
Lupa – Que tipo de infraestruturas elétricas são mais afetadas por cheias e inundações?
Luís Amado – As infraestruturas mais expostas são as linhas de baixa e média tensão e as instalações dos clientes. Quando as casas ficam inundadas, a água entra pelas instalações elétricas e afeta contadores e quadros.
As subestações são, por norma, construídas em locais elevados e raramente ficam submersas. As linhas de transporte, assentes em torres metálicas com fundações robustas, também têm uma resistência maior. O maior desafio continua a estar na rede de distribuição.
Lupa – Existem atualmente infraestruturas em risco devido à subida das águas?
Luís Amado – Sim. Temos quatro torres em situação de risco, sobretudo devido à erosão provocada pela subida dos rios. Duas situam-se na travessia de Macarretane, no Limpopo, e outras duas no rio Mecubúri, na linha Namialo–Ameto, que alimenta Cabo Delgado. As equipas técnicas já estão no terreno a trabalhar em soluções de mitigação, incluindo a relocalização dessas torres.
Lupa – Que riscos estas situações representam para a população?
Luís Amado – O principal risco é a electrocussão, porque a água é condutora de eletricidade. Mesmo quando não há curto-circuito, pode haver indução elétrica. É por isso que a EDM adota uma postura preventiva, desligando infraestruturas sempre que existe risco para a segurança pública.
Lupa – A EDM já consegue quantificar os custos associados a esta resposta às cheias?
Luís Amado – Até ao momento, a EDM já investiu cerca de 140 milhões de meticais em reposições preliminares, incluindo redes, contadores e outras infraestruturas.
Paralelamente, estamos a preparar um pacote de mais de 600 milhões de meticais destinado a soluções estruturais e resilientes, sobretudo em zonas historicamente vulneráveis como Chókwè, para reduzir o impacto de futuras cheias.
Lupa – Estes encargos financeiros colocam em causa o objetivo de acesso universal à energia até 2030?
Luís Amado – Criam pressão sobre os recursos de curto prazo, mas não colocam em causa o objetivo estratégico. O acesso universal continua a ser uma prioridade nacional e institucional. É verdade que alguns prazos anuais podem sofrer ajustes, mas o objetivo global mantém-se.
Lupa – As mudanças climáticas estão a obrigar a EDM a repensar o planeamento da rede elétrica?
Luís Amado- Sem dúvida. Desde o ciclone Idai que os padrões de construção da EDM foram revistos. Hoje, o nosso padrão privilegia infraestruturas mais robustas, com maior uso de betão e metal, especialmente em zonas propensas a cheias.
Este esforço está integrado no Plano Director da EDM até 2043, avaliado em cerca de 3 mil milhões de dólares, que abrange infraestruturas de distribuição, transporte e reforço estrutural da rede, com vista a responder tanto ao crescimento da procura como aos efeitos das mudanças climáticas.
Lupa – Que mensagem deixa aos consumidores e ao público em geral?
Luís Amado – A EDM está a atuar em várias frentes ao mesmo tempo: resposta a emergências, melhoria contínua da qualidade do fornecimento e investimentos estruturais de longo prazo. As nossas equipas estão no terreno todos os dias, muitas vezes em condições difíceis, para garantir segurança e continuidade do serviço.
Os eventos climáticos extremos são um desafio crescente, mas a EDM está a adaptar a sua rede e o seu planeamento para servir melhor o país, hoje e no futuro.