Jornalismo ao pormenor

Apresentação do Livro “Repensar Moçambique”

Por Agostinho Levieque

O livro que passo a apresentar tem como título “Repensar Moçambique”. É de autoria de Rabia Zauria Ibraimo Valigy, a título póstumo, editado pela Kanysa Editora, tem 6 capítulos e 85 páginas.

A autora decide fazer uma reflexão com enfoque na ética e na moral de forma parcimoniosa colocando-se no lugar de uma jovem que viveu e conheceu uma sociedade moçambicana que, infelizmente, aos poucos se foi transformando num contexto conturbado, e de certo modo, de alguma indefinição. Na verdade, o livro oferece mais do que uma estrita abordagem sobre ética e moral; aborda assuntos transversais relacionados com a Educação, Antropologia cultural, Religião, Sociologia política, Psicologia política e uma rica fonte da história política recente do país.

Aceitei apresentar este livro porque o meu nome pertence, de algum modo, àqueles que trabalham pelas ideias de probidade que sempre tenho defendido, e não tenho o direito de recusar quando entendam fazer o uso dele, no serviço dessas mesmas ideias.

 Importa sublinhar que uma das interpretações de leituras precisas refere que a produção de um livro é uma afirmação de uma tese, é um ponto de vista afirmativo e os especialistas dizem ainda, cada livro escrito é uma arrogante afirmação de um pensamento apresentado pelo autor.

Nessa perspectiva, o livro que ora se apresenta resulta de experiências ímpares de vida da autora durante décadas, sistematizadas sem rigor académico, mas com muito valor social e educativo. Aliás, se 2 eventualmente, a autora tiver manifestado uma controvérsia, ela deve ser vista mais como um contributo para um debate contínuo do que uma tentativa de ser magistral.

O título de um livro é, normalmente, um espaço de tensão e, por isso mesmo, passível de leituras nem sempre conciliáveis. Mas é um lugar onde se desenha, de modo particular o horizonte de expectativas. O título deste livro é o que está visível. Repensar Moçambique pode ser vista em várias perspectivas de acordo com o ângulo em que cada um se encontra e o tipo de graduação dos óculos que cada um porta. Todavia, a autora remete-nos a uma radiografia sobre os problemas reais que atrasam o desenvolvimento do país, discute as tendências e projecta horizontes para uma sociedade em paz, de amor ao próximo e de solidariedade.

Ao examinar o percurso da Rabia, sob horizonte da linha do tempo, pode se encontrar a ocorrência subjectiva que, por um lado, norteia a trajectória de uma filantropa assumida que nunca poupou esforços de abraçar as causas nobres conforme as suas palavras “sinto-me uma activista social com muita paixão pelas causas do ser humano” e por outro lado, uma idealista confessa impregnada da Moçambicanidade com os olhos postos a um país próspero e cheio de possibilidades para todos.

O pensamento sobre ética e moral nos termos em que a autora discute no seu livro só tem sentido se estimular sua vivência em cada um de nós. 3 Mais importante que definir o que é ética e moral, é vivê-las e fazer-se probo.

O Livro está bem estruturado, o que facilita a sua leitura, com os capítulos devidamente organizados em títulos e subtítulos que orientam o seguimento e compreensão global dos conteúdos. O leitor pode também optar por ler selectivamente os capítulos, segundo o seu interesse.

Repensar Moçambique é um livro de leitura obrigatória e inspirador para todos aqueles que promovem a prática da cidadania como hábito quotidiano. Por isso, recomendo a sua leitura com a certeza de que ele não apenas narra uma história, mas sim desperta consciência. E mais do que isso, convoca-nos a reflectir sobre o nosso propósito neste planeta terra.

 Dito isso, passo a apresentar Repensar Moçambique de Rabia, capítulo por capítulo de forma resumida. Ressalva-se que alguns dos temas abordados são já de domínio público, mas ganham mais vida e interesse quando relatados por alguém que viveu cerca de sete décadas num país de adversidades onde a qualidade de vida é baixíssima.

Capítulo 1: Moçambique, uma flor por desabrochar O livro começa com um capítulo que faz uma resenha histórica de Moçambique independente do jugo colonial que pela primeira vez, em 1975, os moçambicanos experimentaram a liberdade enquanto povo.

A autora considera a Independência Nacional um marco indelével para si e para outros concidadãos que lhes proporcionou a oportunidade de ter 4 experiências profissionais. Acresce que Moçambique é um país rico em recursos naturais, uma esplêndida biodiversidade sem igual e tem um infinito acervo literário e artístico que vem conquistando o mundo, embora desconhecido para muitos moçambicanos. Refere ainda, que Moçambique é um país de muitos contrastes: por um lado, a miséria que crassa a população e por outro, o potencial turístico bem como os parques e reservas nacionais que ainda clamam por uma exploração sustentável para gerar riqueza que sirva a todos os Moçambicanos. Rabia encerra o capítulo com tristeza ao reconhecer peremptoriamente que quanto à ética e à moral, temáticas que constituem objecto de abordagem deste livro, não existe praticamente nenhuma solidariedade e amor ao próximo.

Capítulo 2: A moral e a ética, ontem e hoje

 A autora começa por nos lembrar que o debate sobre a forma como a moral afecta a atitude das pessoas é antiga e ao mesmo tempo sempre actual.

 Ela faz uma radiografia entre o passado e o presente e conclui que nas primeiras décadas que seguiram a Independência Nacional alcançada em 1975, tínhamos muitas razões para falar de uma sociedade com alguma coesão e valores morais a perseguir. Hoje, as instituições enfrentam um défice ético e o desafio que se coloca é o da busca de pressupostos para a construção de uma sociedade fundada no valor da humanidade.

Capítulo 3: A relação entre o sistema educacional e a moral

A autora aborda a dimensão da moral aplicada à educação. Por via de uma análise da evolução histórica de educação em Moçambique, ela questiona como formar as pessoas para a vida e, num breve olhar ao  passado, conclui que a educação escolar no período colonial foi a tarefa das igrejas, em especial a igreja católica, aliada ao governo colonial português. Como não podia deixar de ser, destinava-se a transmitir os valores da igreja e/ou a ideologia do governo português e os resultados reflectiam uma aparente assumpção, pelos nativos, dos valores inculcados pelo aparelho eclesiástico e colonial.

A autora afirma que com o advento da independência de Moçambique, a 25 de Junho de 1975, a educação escolar assumiu uma nova abordagem, perfilhando a ideologia marxista que pretendia formar um Homem novo em todas as dimensões da vida social.

 Capítulo 4: A globalização, o professor e a moral

 A autora alerta que a globalização afecta a nossa história, pois os países ricos influenciam nossas políticas públicas e por consequência nossa história educacional. Acresce que muitos de nós somos manipulados e ensinados a aceitar a globalização sem questionamento sobre ela, acreditando que a mesma é algo realmente necessário e sem volta.

Rabia, numa análise parcimoniosa das reformas do sector de educação no país, afirma peremptoriamente que elas são influenciadas pelas políticas ocidentais que contribuem para que sistematicamente o País esteja a falhar e parece estar numa crise profunda de falta de ideias.

A autora defende um sistema de educação aceitável. No seu entender seria aquele que deveria produzir curricula focalizados nas especificidades culturais e socioeconómicas de Moçambique.

Rabia denuncia que a vocação para a docência foi substituída pela necessidade de um emprego, refúgio para quem não conseguiu lograr sucesso no mercado de emprego. Ademais, a formação de professores tornou-se vulnerável àqueles que fazem deste processo um negócio rentável, onde se cobram avultadas somas de dinheiro para admissão de indivíduos medíocres.

A autora conclui que em todo este processo os alunos são as principais vítimas não só destas debilidades, como também da degradação da moral nas nossas famílias.

Capítulo 5: Juventude Moçambicana, educação e moral

 A autora traça um quadro cataclísmico do país para depois abordar as peripécias a que os jovens estão sujeitos. Rabia entende que é difícil imaginar um país onde o número de factores adversos à escolarização seja tão elevado quanto o de Moçambique. A pobreza do País, a escassez de recursos do Estado, o subdesenvolvimento da economia, o desemprego acentuado, a degradação de valores morais, o desrespeito da res publica e a miséria da população fazem com que a escola seja tida como um corpo estranho. A autora sustenta sua tese nos seguintes termos: “Há jovens que consideram perca de tempo passar parte da sua vida na universidade, pois podem arranjar alternativas ao desemprego sem se esforçarem para estudar”.

Rabia, na sua reflexão sobre educação da rapariga afirma que ela está na condição de vulnerabilidade com destaque para os casamentos prematuros e mesmo na presença dos pais, não raras vezes ela desempenha o papel de dona de casa. Conclui dizendo que a rapariga é vista como fonte de riqueza das famílias urbanas e rurais.

Capítulo 6: Será que precisamos de reinventar a moral?

 Rabia inicia o capítulo com uma pergunta filosófica e depois alerta-nos que não existe uma moral para os outros e outra para nós. O que existe é o consenso de que o bem e o mal (ética) ou o certo e o errado (moral) são regras organizadoras das relações entre os indivíduos no seio dos grupos, desde aos mais pequenos (como a família) até aos maiores (como o Estado e a Comunidade Internacional). Constituem, portanto, um código comum cujo respeito é a condição de possibilidade da coexistência, comunicação e cooperação entre os membros de uma colectividade.

A autora associa a moral à fome e à pobreza e fundamenta que hoje muita gente no país não tem acesso à comida. Tal escândalo constitui um problema ético e político dos mais graves. Ela encerra o capítulo concluindo que a comida é uma condição biológica indispensável para a vida.

As pessoas precisam de comer para poder pensar e priorizar assuntos de carácter ideológico tais como a moralização.

Finalmente, com a leitura deste livro aprendi uma coisa que considero importantemente partilhar: A cada dia que vivemos, nos preparamos para o fim. Não é uma visão pessimista; é realista. A nossa existência é só possível por causa da vida e da morte. E a morte nos apressa a empreender a vida.

Trabalhe apaixonadamente hoje para que o seu fim seja melhor do que o seu começo. Pois é dessa forma que todos se lembrarão de si quando embarcar naquele voo que só tem passagem de ida.

Parabéns, Rabia, pelos ensinamentos.

 Muito obrigado pela atenção dispensada e boa leitura do livro

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