
“Apresentação do livro Pesadelos Podem Roubar Vidas?”
Por Ilka Saíde
Tenho a alegria de ser amiga das autoras e partilhar com elas a paixão pela arte. E, por causa dessa paixão, há algum tempo recebi delas um rascunho de um conto marcante, e logo dei os parabéns pela sensibilidade com que abordaram os assuntos e disse que estava ansiosa por ver como a história se desenvolveria.
Longe estava eu de saber que, tempos depois, teria a honra de apresentar o resultado final.
Quero agradecer às autoras por me confiarem a honra de apresentar esta obra tão especial. É com imensa alegria, que hoje vos falo não só como amiga das autoras, mas como alguém profundamente tocada por esta obra.
Este livro não é apenas uma coletânea de contos infantojuvenis, mas um convite feito com muito cuidado para uma viagem para dentro de nós, para junto das nossas emoções.
Fui convidada não como especialista, mas como alguém que convive com histórias reais de pessoas e emoções, e reconheci nestes contos muitas das histórias que ouço e realidades que acompanho de perto. Foi notável como elas deram voz a sentimentos difíceis de expressar: o luto, o abuso, o desespero, a busca por sentido.
Mas, ao mesmo tempo, conseguiram lembrar o quanto a imaginação, a esperança e o acolhimento são poderosos instrumentos de cura.
O livro é composto por três contos, aliás, convida-nos a três viagens.
Na primeira, acompanhamos Aleondre, um rapaz que passa por um sentimento que muitos de nós conhecemos de perto: a perda. E ele experiencia essa perda de forma crua, talvez pela primeira vez, em forma de luto, luto pela perda da melhor amiga.
E com esta perda vêm a revolta, a solidão, a vontade de culpar alguém e o desamparo.
Esta é a realidade de muitas crianças que passam por este sentimento. Nós, os seus cuidadores, às vezes ficamos tão imersos nas cerimónias e na nossa própria dor que esquecemos que pode haver uma criança que se sente perdida.
Para o protagonista, o sentimento de que ninguém consegue acolher o que ele sente acompanha-o durante o dia e enche-o de escuridão.
E chega a noite, e com ela talvez a resposta que ele procurava aparece em forma de sonho, ou melhor, pesadelo, um pesadelo onde ele tem de enfrentar essa escuridão.
Esta história lembra-me muitos cuidadores que me perguntam como abordar o tema da morte e do luto com as crianças. Dou algumas dicas, mas este conto agora passa a ser mais um instrumento poderoso para conversar com as crianças, ele pede que seja lido juntos.
Consigo já imaginar pais e os seus filhos a lerem este trecho:
“– Perdidos? Hihihi-hahaha-hehehe-hohoho! – uma sombra esguia, alta e de cartola materializou–se do soalho dando forma ao Sr. Pesadelo. – O quê? Ainda não se familiarizaram com os vossos novos cómodos? Hihihi-hahaha-hehehe-hohoho! – inclinou o tronco elástico sobre as crianças, e com a bocarraexibindo os dentes serrados, declarou: – Almas fracas, esta é a vossa última estação! – a voz transitou de polida para algo grutesco e gutural.
Aleondre, desconsiderando a dor, abraçou a amiga. – Não chores Mavilhanoo! Ao menos estamos juntos.”
Fim de citação.
“Ao menos estamos juntos.” É este juntos que vos convido a viver ao ler este conto, junto das nossas crianças. Não apenas como um conto que lhes oferecemos para descobrirem sozinhas, mas como um momento em que, juntos, continuamos apesar da dor e aceitamos a perda sem perder o amor.
A segunda viagem, talvez a que mais me tocou, fala de um tema que seria pouco apelidá-lo de “abuso de menores”, porque estas palavras não chegam para descrever a realidade de muitas crianças.
É também o caso de Charmila, a protagonista deste conto, que sozinha passa por situações de abuso.
E, como tantas crianças como ela, a sociedade, nós, escolhe fingir que não vê. Mas, felizmente para Charmila, ela encontra na sua imaginação um refúgio poderoso: uma aventura que lhe mostra o caminho. E, no final, esta aventura dá-lhe a coragem de fugir e encontrar alguém que escolheu abrir os olhos e acolhê-la.
Esta história faz-me pensar em como a imaginação das crianças tem muito a dizer-nos. Não são “disparates sem pés nem cabeça”, são um vislumbre para dentro do mundo delas.
E nós só temos de estar dispostos a ouvir e, às vezes, até a participar para conseguirmos acompanhá-las nas suas aventuras, e talvez ser quem consegue acolhê-las nos seus perigos imaginários e reais.
A terceira e última viagem é contada de forma tão fantástica que obriga os adultos a cavarem fundo na sua imaginação.
Uma criança facilmente conseguiria ver tudo o que está a acontecer, mas um adulto teria de tentar compreender melhor as crianças para realmente entender o mundo que está história nos traz.
A história fala nos de Victor, um menino que, como muitas crianças, vive numa situação que não escolheu e sente que não controla. Ele vive com uma doença crónica, e com ela vem o ressentimento pelos pais, porque, para ele, era culpa dos pais que ele, um inocente, tivesse o vírus do HIV. Este ressentimento vem acompanhado da depressão, do isolamento e da solidão.

No meio de todos esses sentimentos, ele encontra refúgio nos livros, lá, ele tem o seu espaço seguro. Mas nem todos estão felizes por ele gostar de ler. Talvez seja a ignorância e o desinteresse, personificados numa criatura assustadora, que, para desencorajá-lo, torna os livros, o seu espaço seguro, num campo de batalha, e puxa o protagonista para dentro do livro, onde, para sobreviver, ele tem de confrontar-se com muitas verdades e descobrir que, para viver, terá de salvar a pessoa mais importante da sua história.
Como percebemos, estes três contos abordam temas importantes e aspectos diferentes que afectam a saúde mental das crianças.
E nós, como seus cuidadores, temos o papel de olhar para além da imaginação e realmente tentar compreender as crianças e os seus mundos interiores.
O livro consegue, com cuidado e simplicidade, falar de coisas que nem sempre conseguimos explicar com palavras: a dor, a esperança e aquilo que parece maior do que nós.
Embora cada conto tenha tocado uma parte diferente de mim, o segundo ficou comigo por mais tempo. Depois de o ler, escrevi uma reflexão que gostaria de partilhar:
A tristeza sabe de onde vem, mas não tem para onde ir. Vive nas memórias e agarra-se a elas. É fácil nos apegarmos a ela e guardá-la junto ao coração, porque nos reconhecemos nela.
A esperança vem acompanhada; os bons estão sempre à sua volta, esperando que ela apareça para poderem celebrar com ela.
Mas não é com a esperança que termina a viagem; é com ela que encontramos o caminho para onde devemos ir.
E, por fim, o milagre. É com o milagre que confrontamos nossas crenças e aprendemos sobre a verdade.
Mas, para isso, é preciso estarmos dispostos a ir até onde ele está e ver o que tem para nos mostrar.
Nesse momento, somos confrontados com a pergunta: “Quem sou eu?” e a resposta nos liberta e nos dá forças para acordar.
Concluo dizendo: parabéns à Chude e a Sharon pela coragem e sensibilidade com que trazem à vida estes temas.
E convido todos a lerem este livro, não apenas as crianças, adolescentes e jovens, mas todos. Que tiremos um momento para lê-lo juntos com as crianças.
Mas leiam com atenção, com empatia e com o coração aberto. Este livro tem muito para mostrar, e talvez, quem sabe, também algo a transformar… ou até a curar.