Lupa News recupera entrevistas de Fernando Couto e Agostinho Langa Júnior, que defendem a ligação ferroviária entre Cabo Delgado e Maputo, destacando vantagens económicas e ambientais, mas sublinhando a necessidade de estudos rigorosos e implementação faseada.
A criação do Gabinete de Coordenação do Projecto da Linha Ferroviária Norte-Sul (GLNS), aprovada pelo Governo, reabre com força um dos debates mais estruturantes da economia moçambicana: a construção de uma espinha dorsal ferroviária que ligue o país de Norte a Sul.
Mais do que um projecto de transporte, trata-se de uma decisão estratégica com impacto directo na competitividade, integração territorial e transformação produtiva de Moçambique.
Ao revisitar entrevistas concedidas em anos anteriores, o Lupa News traz novamente ao centro do debate duas vozes experientes e influentes do sector: Fernando Couto e Agostinho Langa Júnior. Entre o optimismo técnico e a prudência institucional, ambos convergem num ponto essencial: o projecto é possível – mas exige rigor, visão de longo prazo e responsabilidade financeira.
Para Fernando Couto, antigo administrador do Corredor de Desenvolvimento do Norte, a ligação ferroviária Norte-Sul representa uma solução estruturante para vários problemas ao mesmo tempo.
Couto afasta, contudo, a ideia de modelos de alta velocidade importados de países asiáticos. Para Moçambique, defende um sistema inter-cidades funcional, fiável e economicamente ajustado, capaz de ligar centros urbanos e dinamizar mercados regionais.
Na sua leitura, as cargas seguem sempre o caminho mais eficiente – e uma vez criada a infra-estrutura adequada, o fluxo económico tenderá naturalmente a aderir.
Se Couto sublinha a oportunidade, Agostinho Langa Júnior, Presidente do Conselho de Administração dos CFM, reforça a necessidade de disciplina estratégica e rigor técnico.
Sem isso, alerta, o País corre o risco de criar uma infra-estrutura cara e subutilizada – um “elefante branco” com elevado custo de manutenção e baixo retorno económico.
Para Langa, este é um projecto nacional, que deve envolver o Governo, o sector privado, parceiros internacionais e instituições financeiras.
Entre o entusiasmo e o risco, emerge uma solução de equilíbrio: a implementação faseada da espinha dorsal ferroviária.
Moçambique já dispõe de corredores estratégicos que podem ser progressivamente interligados:
Linha de Limpopo
Linha de Machipanda
Linha de Sena
Corredor do Norte
A interconexão inteligente destas infraestruturas pode permitir a criação de uma espinha dorsal funcional, reduzindo custos iniciais e testando a procura real antes de grandes expansões.
Este modelo permitiria:
diluir o investimento ao longo do tempo;
reduzir o risco financeiro;
atrair capital privado;
e garantir maior sustentabilidade do projecto.
O papel do Estado e dos parceiros internacionais
Entre os elementos críticos estão: parcerias público-privadas bem estruturadas;
financiamento concessional e multilateral;
parceiros tecnológicos com experiência ferroviária; garantias de volume de carga (âncoras logísticas).
Sem estes pilares, o risco de insustentabilidade aumenta significativamente.
Uma ligação ferroviária Norte–Sul não é apenas um projecto de mobilidade.
É uma infraestrutura de transformação nacional, capaz de: reduzir o custo de vida; dinamizar cadeias de valor agrícolas e industriais; facilitar exportações; integrar mercados internos; e reforçar a coesão territorial.
Em termos estratégicos, trata-se de um investimento na competitividade de Moçambique nas próximas décadas.
O debate sobre a espinha dorsal Norte-Sul entra agora numa nova fase – mais concreta, mais técnica e mais exigente.
As vozes de Fernando Couto e Agostinho Langa Júnior, recuperadas pelo Lupa News, mostram que existe consenso sobre a viabilidade, mas também lucidez sobre os riscos.
A mensagem central é clara: Moçambique deve avançar – mas deve avançar com método, dados e responsabilidade. Porque, quando bem planeada, uma linha férrea pode ligar o País. Mas, quando mal concebida, pode tornar-se apenas mais um peso para as futuras gerações.