Ungulani Ba Ka Khosa
Quando iniciei a minha actividade profissional como professor, corria o ano de 1978. Fui colocado em Lichinga, capital da setentrional província de Niassa. Éramos, o grupo do Oito de Março, então jovens entre os dezoito e vinte anos. A primeira estupefação, entre outras que só cabem nas memórias, foi a de nos depararmos com essa estranha e incongruente figura criada nos primeiros anos da independência: o professor de educação política. Eram indivíduos de uma ignorância pesarosa que se arvoravam de moralistas dos novos tempos. Desconheciam por completo a História da Frelimo, âncora da disciplina. Fora das aulas colavam-se-nos como polícias, dizendo entre outras barbaridades que não podíamos, nós, jovens solteiros, abraçar mulheres e muito menos namorar. O então Ministério de Educação e Cultura teve a decência de extinguir tal disciplina anos depois.
Este introito, vem a propósito de uma outra inusitada perplexidade que me acompanhou ao assistir a proclamação póstuma do novo herói a repousar na cripta da praça dos Heróis: o tenente coronel Tomé Eduardo. Este herói foi, durante os cinquenta anos da nossa independência, um militar que pouco saiu da obscuridade. Foi, esporadicamente, notícia durante a guerra civil dos 16 anos. Os seus feitos durante a luta de libertação nunca vieram a público. Soube-se, dias após o decesso, que fora, durante a gesta nacionalista, responsável pelas transmissões, exímio executor do então código morse, responsável de alguns campos de treino, e outros feitos. Durante as honras de estado a que teve direito, surpreenderam-me as palavras dos antigos estadistas a convocarem professores e estudantes de todos os escalões de ensino, a reterem-se nos memoráveis feitos deste insigne herói votado ao silêncio por mais de cinquenta anos!
A verdade é que o grande parágrafo, a grande lauda laudatória, restringe-se sempre ao mais alto magistrado da nação. Os outros, atenho-me aos heróis da gesta, mesmo que tivessem sido grandes combatentes, nunca mereceram encómios, pois podiam deslustrar, desdourar a figura do grande herói da nação. Há heróis na cripta que poucos conhecem os seus feitos: Cândido Mondlane, Sebastião Mabote, Milagre Mabote, Francisco Manyanga, Osvaldo Tazama, Filipe Samuel Magaia (é conhecido por outras razões que não convém aqui ilustrar), e outros que jazem fora da cripta, como os comandantes Moiana, Matavele, Goi Goi, Maquival, Cara Alegre, entre outros. São figuras que não resistiram a duas gerações, exceptuando o Marcelino dos Santos que se irá eternizar pela singularidade da sua trajectória.
Perguntas que teimam em se revelar: para que serve uma praça de heróis desconhecidos? Para que serve esse monumento, eternamente evocado em dias solenes, se os que maioritariamente ali jazem são uns eternos desconhecidos de gerações que antecederam e procederam à independência?
Querem que evoquemos os nossos heróis. Com que documentos, com que factos, com que narrativas?
Querem reavivar, em plena era digital, essa desastrosa figura do professor de Educação Política? Ou querem que a História do movimento de libertação se desvaneça com o tempo?
O que interessa, de facto, ao presente e futuro, é libertar a História da Luta de Libertação Nacional, deixa-la que flua e respire por si em todos os cantos dos pontos cardeais!
Libertaram a Pátria, mas não libertaram a História da Luta de Libertação!
Viva o 25 de Setembro!
(1)Título roubado do romance do escritor argentino Ernesto Sabato.
Ungulani Ba Ka Khosa
Maputo, Setembro de 2026.