Moçambique enfrenta um novo factor de alto risco hidrológico: a Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos alertou para a possibilidade de ruptura da Barragem de Senteeko, na África do Sul, um cenário que poderá libertar caudais extremos no rio Incomáti e agravar de forma significativa as cheias no sul do país.
O aviso emitido esta manhã pela DNGRH sobre o risco de ruptura da Barragem de Senteeko, na África do Sul, introduz um novo e sensível factor de instabilidade no já frágil quadro hidrológico do sul de Moçambique. Localizada na zona de Barberton, município de Mbombela, a infra-estrutura está implantada no rio Crocodilo, um dos principais afluentes do rio Incomáti, cuja bacia é partilhada entre os dois países.
Segundo a gestora das bacias hidrográficas, a barragem, com capacidade de armazenamento estimada em 1,8 milhões de metros cúbicos, ultrapassou os limites de segurança devido à persistência de chuvas intensas na região sul-africana. Em caso de ruptura, prevê-se a libertação súbita de um caudal de pico entre 2.300 e 2.500 metros cúbicos por segundo na secção de Ressano Garcia, um volume capaz de alterar drasticamente o comportamento do Incomáti a jusante.
Mais do que um risco técnico localizado, o cenário projectado tem implicações directas sobre o território moçambicano. As autoridades alertam que tal descarga poderá agravar significativamente as inundações nos distritos de Magude e Manhiça, zonas já vulneráveis, onde comunidades, campos agrícolas e infra-estruturas se encontram sob pressão constante das cheias.
O impacto poderá estender-se à transitabilidade rodoviária, sobretudo na Estrada Nacional Número Um (N1), actualmente interrompida em dois pontos no distrito da Manhiça, no troço Manhiça–Incoluane, devido ao transbordo do próprio rio Incomáti. Uma eventual ruptura da barragem sul-africana não apenas intensificaria a inundação destes pontos, como prolongaria o isolamento, dificultando operações de socorro, circulação de bens essenciais e mobilidade das populações.
O alerta sublinha a natureza transfronteiriça do risco hídrico na região, onde decisões, infra-estruturas e fenómenos climáticos a montante produzem efeitos imediatos a jusante. Num contexto de solos saturados e cursos de água já acima dos níveis normais, a possível falha de Senteeko representa um potencial multiplicador de danos, exigindo vigilância permanente, coordenação internacional e prontidão operacional para mitigar um cenário que poderá rapidamente ultrapassar o actual nível de emergência.