“A obra completa-se no olhar de quem a vê” — Cristina González Martin

Uma exposição para o público descobrir-se “Entre atmosferas”

Entre a luz que se dissolve e o tempo que abranda, Cristina González Martin convida o público a habitar um território invisível. Entre atmosferas, a exposição que inaugura a 4 de Fevereiro, nasce como um espaço de suspensão: um intervalo subtil onde memória, emoção e paisagem se tocam sem se fixarem. Artista moldada por mais de duas décadas de deslocamentos entre continentes, culturas e linguagens, Cristina pinta como quem escreve um diário sensorial de viagem — camadas de cor que respiram silêncio, evocam estados interiores e devolvem ao espectador a possibilidade rara de parar. Reflectir. Viver o momento.

Em diálogo com o Lupa News, a criadora espanhola descreve a pintura como gesto de atenção plena, uma forma de honrar o presente e resistir ao excesso de ruído do mundo contemporâneo. A exposição propõe menos respostas do que experiências: perder-se para reencontrar-se, transformar a visita num acto íntimo de presença. Num tempo saturado de imagens, em que quase tudo urge, Entre atmosferas surge como convite à pausa — um lugar onde a obra só se completa no encontro com quem a observa, prolongando-se na memória como uma viagem compartilhada.

A residir em Moçambique há cerca de dois anos, Cristina González Martin encontra no país uma paisagem emocional e humana que atravessa silenciosamente a sua obra. A artista fala de poesia na natureza, da dignidade e resiliência das pessoas, e de como certas imagens — a terra cicatrizada, os campos abertos — emergem na tela quase que inconscientemente. A sua pintura, situada entre um impressionismo contemporâneo e a abstração, transforma experiências vividas em atmosferas evocadoras, lugares que não pertencem a um mapa preciso, mas a uma geografia interior. É a partir desse cruzamento entre deslocamento, memória e presença que Entre atmosferas se constrói: não como retrato de um lugar específico, mas como estado sensível que convida o espectador a habitar o intervalo entre ver e sentir.

 

“A pintura como diário visual de viagem”

Entre atmosferas é um título aberto e sugestivo. Que ideias e sensações ela procura convocar?

Entre Atmosferas convoca o espaço invisível entre um lugar e outro, entre um pensamento e uma emoção. É o território onde a luz se dissolve, onde a memória respira e o tempo abranda. Evoca sensações que não se fixam.

São atmosferas interiores e exteriores que se tocam, estados de espírito em transformação, paisagens sentidas mais do que observadas.

Que tipo de experiências deseja criar para quem visitar a exposição?

Gostaria que as pessoas se permitissem o tempo de se perder nessas atmosferas e, nesse perder-se, de se reencontrarem consigo mesmas. Vivemos imersos em ruído — redes sociais incessantes, excesso de estímulos, um barulho constante que nos afasta da escuta interior. Falta-nos tempo, silêncio, presença. Falta-nos mindfulness.

É nesse estado de atenção plena que gosto de estar. É aí que a pintura se entrelaça com uns versos lidos, uma música escutada, uma memória que insiste em permanecer. Mas chega um momento em que a obra deixa de ser minha. Ela passa a pertencer a quem a observa.

Nesse triângulo invisível entre artista, obra e espectador, o centro desloca-se. O mais importante são agora as pessoas que entram na exposição, que se detêm diante das pinturas e as olham com a sua própria bagagem: os seus medos, emoções, desejos e esperanças.

É nesse encontro entre o meu percurso e a experiência do espectador que a obra se completa, tornando-se uma viagem compartilhada que se prolonga no tempo.

Esta exposição nasce de um período específico da sua vida ou de um percurso mais longo?

Esta exposição não nasce de um único momento, mas de um percurso de mais de 23 anos a pintar e a explorar paisagens internas e externas. Vivi em quatro continentes, em terras diferentes, culturas diversas, paisagens únicas, histórias que ficaram na memória e junto de pessoas maravilhosas que marcaram o meu olhar.

Vejo a pintura como um diário visual de viagem, no qual procuro traduzir a essência desses lugares através da cor, da forma e da atmosfera.

No texto de Eduardo Quive, ele coloca a seguinte citação sua: “pinto para honrar o presente”. Para si, o que significa, concretamente, honrar o presente através da pintura?

Esta exposição reflecte um caminho contínuo de contemplação do quotidiano, de descoberta da beleza escondida na simplicidade e da poesia que habita no aparentemente trivial.

A sua pintura parte mais da observação do mundo exterior ou da escuta interior?

Procuro captar não apenas o que vejo, mas o que sinto: atmosferas, emoções, a poesia escondida na simplicidade do instante. Talvez estes versos de Fernando Leite Couto expressem isso melhor.

Há um júbilo interior e secreto,

 e nimbado de nostalgia,

fora e dentro de nós, interior e secreto,

e contudo visível

Que lugar têm a emoção, o corpo e o silêncio no seu processo criativo?

Cada obra é um convite a pausar, respirar e mergulhar nesse espaço onde memórias, cores e luz se entrelaçam, permitindo que quem observa descubra, também, um pedaço de si próprio.

 

Encontro poesia na natureza, e quando pinto é como se a vivesse em dobro, pois versos tão evocadores me vêm à mente. E às vezes muda a forma como interpreto a obra. Também a leitura de escritores moçambicanos me inspira.

 

“Quando a cor supera a forma”

Como começa normalmente um novo trabalho? Trabalha mais a partir de esboços, de intuições ou de longos períodos de observação?

Quando viajo, procuro contemplar e me deixar envolver pelas cores e pelas sensações. Depois, diante da tela , a primeira camada nasce de um impulso, deixando a mente livre de preconceitos, dinâmica, ousada, sem julgamentos. A camada seguinte surge de uma observação lenta, delicada. Por onde começar a olhar? Então, de repente, uma forma e uma cor aparecem, guiando-me. Tornam-se parte do movimento volumétrico das cores e texturas, criando densidade e profundidade. Camadas se acumulam. Sinto minha mão guiada, pintando com todas as ferramentas ao redor, pinceladas soltas, buscando a harmonia da luz. E às vezes, o resultado me surpreende — como é possível que eu chegue até ali?

Há riscos estéticos ou zonas de desconforto que decidiu explorar neste projeto?

Preciso dessa harmonia na mente; sem ela, a pintura me perturba. Quando me sinto em paz, sei que está concluída.

Viveu e trabalhou em vários países. O que a mobilidade lhe ensinou enquanto artista e de que forma as diferentes culturas moldaram o seu olhar?

Da Europa, fico com todos os museus e os grandes artistas. Admiro especialmente as correntes do final e início do século XX, e se tivesse que escolher um artista, seria Turner.

Em Fiji, fiz parte dos pintores contratados pela galeria da Universidade do South Pacific. Meus colegas artistas locais não haviam recebido nenhuma formação artística, mas lhes sobrava criatividade. admiro muito o trabalho deles. Montávamos exposições, participávamos em projetos de investigação, educação e sensibilização do público. Ali comecei a usar a arte como mensagem e aprendi a trabalhar com disciplina e colaboração.

O Vietnam trouxe-me algo de imenso valor: fazer parte de um grupo internacional de artistas do Sudeste Asiático. Admiro a sua técnica milenar.  Participei em várias residências artísticas no Vietnam, na Tailândia e na Malásia, criando e expondo lado a lado com artistas de diferentes origens e técnicas. Poder questionar, observar e aprender com eles foi um verdadeiro privilégio. Passar várias semanas juntos cria laços que duram para sempre, e cada experiência fortaleceu a minha visão artística e humana.

Sente que a sua obra pertence a um território específico ou a um espaço mais híbrido?

A minha pintura navega entre um impressionismo contemporâneo e a abstração.

Como constrói a sua identidade artística num percurso marcado pelo deslocamento?

Inicialmente, eu pintava de forma mais figurativa, mas no final da minha estadia em Fiji, a cor começou a superar a forma e apoderou-se da composição. O Oceano Pacífico fez o resto, inspirando a minha paleta e o meu olhar para a luz e o movimento da cor.

Estou sempre disposta a aprender novas técnicas e procuro aproveitar tudo o que cada país me ofereceu: aquarela, pastel, pintura sobre seda, laca, frescos, escultura com materiais reciclados, batik, cerâmica… cheguei mesmo a trocar o óleo pelo acrílico porque as obras não secavam e eu trabalho diariamente. Apesar de tantas técnicas novas, acredito que o meu estilo continua reconhecível e se mantém, embora evolua, como é natural.

Agora estou a explorar projetos totalmente distintos em paralelo, mas eles não fazem parte desta exposição.

A parte mais complicada tem sido sempre tentar entrar na arena cultural de cada país, conhecer outros artistas, curadores, galeristas e centros culturais. Felizmente, sempre naveguei bem nesse aspeto, mas continua a ser um desafio e uma incerteza, sobretudo antes de sair do nosso próprio espaço de conforto.

Expor hoje neste centro cultural é um verdadeiro prazer, e estou muito agradecida a Yolanda Couto e à sua equipa pelo profissionalismo e pelo apoio.

“Encontro poesia na natureza, e quando pinto, versos me vêm à mente”

Está a residir em Moçambique há cerca de 2 anos. Que impacto esse período em Moçambique teve na sua vida e no seu trabalho? O que encontrou aqui que não tinha encontrado noutros lugares?

Moçambique ensina-me todos os dias a valorizar e admirar ainda mais o seu povo. A sua amabilidade, dignidade, firmeza e resiliência ficam gravadas no coração; a sua criatividade e a forma como valorizam a cultura a nível social são um aprendizado constante. A poesia da natureza, a magnificência dos animais, a sua música e o seu ritmo… tudo é um estímulo após outro. Mas também o seu sofrimento chega ao fundo da alma, e agora, com as inundações, é a gota que enche o copo. A solidariedade da sociedade é o único alívio.

Procuro ir a eventos culturais todas as semanas. Há tanta arte inspiradora para descobrir. Gosto muito de artistas moçambicanos, de modo geral. Para dar alguns exemplos, Phambi ou Reinata, e a última exposição de Nelly Guambe me encantou profundamente.

Em que medida Moçambique alterou ou cimentou a sua paleta, os seus temas ou a sua forma de observar?

Embora normalmente pinte paisagens indefinidas, lugares inventados, atmosferas evocadoras de lugar nenhum, vi-me a pintar imagens mais concretas: brotos primaveris num momento em que um país se mobilizava por um renascimento, o resiliente baobá sagrado, a terra cicatrizada e texturada, os campos imensos de espigas da savana. De alguma forma, há ideias envolventes que emergem sem serem pensadas, e a minha mão já não sabe se guia ou se obedece.

Que memórias, atmosferas ou ensinamentos deste país atravessam esta exposição?

Gostaria de te contar sobre uma relação muito especial que tenho com a minha maneira de ver as coisas que me rodeiam. Encontro poesia na natureza, e quando pinto é como se a vivesse em dobro, pois versos tão evocadores me vêm à mente. E às vezes muda a forma como interpreto a obra. Também a leitura de escritores moçambicanos me inspira.

Até que ponto a arte ainda pode ser ainda um lugar de pausa e de escuta, num mundo saturado de imagens e de velocidade?

Por vezes, em algumas exposições, aconteceu-me ver o público ficar em silêncio, pensativo, absorto. Pessoas que releem versos que para mim têm um significado especial e que me agradecem por lhes dar a oportunidade de parar e pensar. Clientes que me dizem encontrar essa paz num lugar querido da sua casa, onde podem perder-se na obra sem se cansarem dela. Pessoas que ressignificam a pintura a partir da sua própria leitura, da sua própria história — e que, por vezes, até choram pelas memórias que a obra lhes desperta.

Gostaria de envolver o espectador numa sensação de imersão, captando essa energia viva que atravessa e molda a sensibilidade poética; ajudá-lo a evadir-se e, ao mesmo tempo, a concentrar-se. Oferecer algo etéreo, suspenso, quase intangível.

Que caminhos gostaria de aprofundar depois desta exposição?

A nível artístico, quero continuar a aprender batik, dedicar-me ao trabalho com cerâmica em casa, sobretudo agora que, tristemente, Lara Freitas parte de Moçambique, deixando-nos sem aquelas sessões maravilhosas no seu estúdio. Tenho também um projeto de gravura em linóleo momentaneamente em pausa, sem nunca deixar de pintar neste estilo que considero profundamente libertador. Preciso dele: é um espaço de respiração, de equilíbrio, uma forma essencial de estar comigo mesma.

No entanto, tenho em breve uma exposição com uma técnica totalmente distinta, que me abriu um universo criativo inesperado e, talvez, também novas possibilidades a nível profissional.

Por outro lado, gostaria de explorar a possibilidade de trazer artistas internacionais em formato de residência, criando espaços de encontro onde artistas locais possam ter a mesma oportunidade que eu tive: impregnar-se de outras técnicas, outros olhares, outras culturas, estabelecer laços duradouros e fortalecer redes de colaboração e diálogo.

Há novos projetos, residências ou exposições em preparação?

Este início de ano não poderia ser mais intenso para mim. No final de março terei uma exposição na Galeria do Porto intitulada “Sob Cargas Invisívels”, onde procuro dignificar e sensibilizar sobre o duro papel da mulher em Moçambique. Esta exposição contará com o apoio da Embaixada da Espanha e terá um evento muito interessante para aprofundar o tema.

E agora de forma coletiva, mas com a mesma temática, estarei noutra exposição de mulheres no Núcleo de Arte, como no ano passado, coincidindo com o Dia da Mulher Moçambicana, a 7 de abril. Também exporei estas obras na Malásia sem viajar até lá, enviando as minhas obras a exposição “O dereito de ser vista”.

Além disso, participarei na Colecção Crescente em Kulungwana. Estou muito feliz por fazer parte da cena cultural de Moçambique nesta exposição, que reúne tantos artistas e que cresce a cada ano.

Tive que renunciar, por questões de agenda, a uma residência de artistas na Malásia, e talvez aceite um convite para o Nepal em maio. Preciso calibrar bem os tempos. Mas, como vês, parece que esta primeira parte do ano quis concentrar tudo de uma só vez.

Se tivesse de definir esta exposição numa frase, qual seria?

Deixa-te levar entre atmosferas, descobre-te e habita esse lugar evocador, esse intervalo sutil onde perder-te.

O que espera que o público leve consigo depois da visita?

Um agradável momento de introspeção.

Que palavra deixaria a quem vai entrar em “Entre atmosfera” a 04 de Fevereiro?

Descobre-te!

Exposição: Entre Atmosferas

Artista: Cristina González Martín

Curadoria: Yolanda Couto

Local: Fernando Leite Couto

Abertura: 04 de Fevereiro de 2026

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