O Ministro do Interior, Paulo Chachine, voltou esta semana a puxar pelo fio da velha narrativa: a de que a Polícia da República de Moçambique (PRM) deve aprofundar a sua ligação com as comunidades, isto é, o povo. É uma frase bonita, repetida há décadas nos discursos oficiais, mas que, no terreno, continua a colidir com a realidade da desconfiança mútua entre polícia e cidadãos.
Durante a cerimónia de tomada de posse de novos Comandantes Provinciais e Adjuntos da PRM, Chachine insistiu que “a informação das comunidades há-de ser relevante para o sucesso da missão policial”, apontando crimes como homicídios por acusações de feitiçaria, feminicídios, imigração ilegal, tráfico de drogas e pessoas, garimpo e corrupção como áreas prioritárias. O ministro reforçou a ideia de que, com boa colaboração, os criminosos seriam prontamente denunciados e as autoridades poderiam agir com eficácia.
Mas a pergunta que não cala é: como esperar cooperação de comunidades que, em muitos casos, temem mais a polícia do que os criminosos? Em vários pontos do país, a imagem da PRM continua associada à extorsão, brutalidade e falta de resposta às denúncias populares. Há um fosso crescente entre a retórica institucional e a prática quotidiana.
Os novos comandantes – entre eles Joana da Glória Milice (Inhambane), Beatriz Zacarias Tichala (Sofala), João Mário Mupuela (Manica), Sérgio Mamure Age (Nampula) e Victor Novela (Niassa) – herdam não apenas cargos, mas também o desafio de restaurar a confiança pública numa corporação que precisa, mais do que nunca, de proximidade e transparência.
Enquanto isso, as comunidades esperam menos discursos e mais presença real – não apenas nas cerimónias, mas nas estradas, mercados, bairros e vilas onde o medo é quotidiano. Falar de “ligação com as comunidades” só fará sentido quando a PRM deixar de ver o povo como suspeito e começar a vê-lo como aliado.