O CORAÇÃO MOÇAMBICANO DE VICENTE BERENGUER

Nelson Saúte

O Padre Vicente Berenguer Llopis, que chegou a Moçambique em 1967, aos 30 anos, tendo-se dedicado ao longo de 50 anos a combater a pobreza através da educação – foi um dos Padres de Burgos que testemunhou, documentou e denunciou o massacre de Wiriyamu (e de Chawola) –, morreu hoje, 21 de Outubro, aos 88 anos, em Teulada, a sua terra natal, na província de Alicante, em Espanha, para onde regressara em Julho de 2017, depois de um notável trabalho em Moçambique. Nascera a 5 de Julho de 1937 e fora educado no seminário de Moncada em Valência e na Universidade de Burgos.

Adrian Hastings, padre inglês, que foi quem haveria de empreender essa intrépida denúncia, quando publicou no “Times” de Londres, a 10 de Junho de 1973, “o terrível relatório do massacre de Wiriyamu, em Moçambique, praticado por unidades do exercito português, em 16 de Dezembro de 1972”, confrontando Marcello Caetano em visita a Londres, dar-nos-á conta, na sua obra-denúncia, intitulada “Wiriyamu” e que teve uma ampla divulgação mundial, que «as primeiras notícias seguras dos acontecimentos  a chegar à missão foram muito provavelmente transmitidas pelo Padre Vicente Berenguer que, no dia seguinte, Domingo 17, viajou de autocarro de Changara para Tete».

Berenguer viu a zona do massacre em chamas, falou com os sobreviventes, foi dos primeiros a documentá-lo. Peter Pringle, um dos primeiros jornalistas ocidentais a chegar a Moçambique, após esta denúncia escreverá: «Na manhã de 16 de Dezembro de 1972, tropas coloniais portuguesas reuniram os habitantes de Wiriyamu, incluindo mulheres e crianças, no largo principal da povoação e ordenaram-lhes que batessem palmas, que cantassem para se despedirem da vida. Em seguida, os soldados abriram fogo. Os que escaparam às balas foram mortos por granadas. Incitados pelo brado ´Matem-nos a todos´, os militares levaram o morticínio a quatro povoações vizinhas ao longo do Rio Zambeze, onde o território de Moçambique se estende para o Zimbabwe (Rodésia, à data dos acontecimentos), a Zâmbia e o Malawi – uma região designada pelos missionários católicos como ´a terra esquecida por Deus`. No final do dia, perto de 400 aldeãos tinham sido mortos, e os seus corpos eram lentamente consumidos pelas chamas em piras funerárias ateadas pelos soldados com o capim que cobria as palhotas».

Mustafah Dhada, moçambicano, nascido no Búzi, professor nos EUA, escreveu a mais completa investigação histórica sobre as atrocidades então praticadas: “O Massacre Português de Wiriamu: Moçambique, 1972” é uma ingente corajosa investigação sobre aqueles acontecimentos infaustos. Ele cartografa a acção de Berenguer e dos seus colegas, os chamados Padres Brancos, que tiveram uma acção missionária notável a partir dos anos 40 em Moçambique.

A Concordata de 1940 está na origem do surgimento, em Moçambique, de companhias missionárias que já trabalhavam em África, designadamente os Padres de Verona, os Padres de Consolata, italianos, Padres Brancos (espalhados pelo mundo inteiro) e os Padres de Burgos, de origem espanhola. O ensino era a sua principal acção, sendo que aprendiam as línguas africanas e faziam a missionação e o desenvolvimento das populações locais. É evidente que a sua acção e os seus métodos iriam colidir com as autoridades coloniais, o que efectivamente aconteceu.

No mesmo ano da Concordata, a Beira tornava-se uma diocese independente e D. Sebastião Soares de Resende seria nomeado seu bispo. Os Padres Brancos encontram nele o seu arrimo. Resende fez críticas severas ao regime, acolheu as companhias missionárias e os Padres Brancos, defendeu os moçambicanos e os dignificou largamente no dia-a-dia e no jornal “Diário de Moçambique”. Um dos seus coadjuvantes era o seu sobrinho, José Soares Martins, que viria a ser conhecido e reconhecido como historiador, José Capela, outro nome ínclito da história deste país, hoje esquecido entre nós.

Aquando da morte do Bispo da Beira, em 1967, sucedeu-lhe um bispo contrário à sua orientação, D. Manuel Ferreira Cabral, que se revelaria um desastre. A acção e situação dos Padres Brancos em Moçambique foi, desde então, marcada por uma forte ambiguidade. Não obstante, eles não renunciaram ao seu papel de defensores das populações contra as indignas injustiças socias a que estavam expostas e prosseguiram a denúncia das injustiças das mesmas e das brutalidades policiais que marcavam aqueles anos. É preciso dizer que os ventos sopravam do Norte e a saga libertária prosseguia nas matas.

Vicente Berenguer chegou a Moçambique justamente no ano da morte de Soares de Resende. Não obstante as contrariedades, os Padres Brancos prosseguiam o seu desígnio, apoiando as populações e apoiando, inequivocamente, os guerrilheiros que lutavam pela independência, com medicamentos, comida, roupas e mantas. A actividade destes padres, a sua defesa das populações, a luta pela justiça, pela liberdade e dignidade dos moçambicanos levou à prisão de uns, expulsão de outros. Domingos Ferrão, o primeiro padre negro da Diocese de Tete, chegou a ser preso.

Vicente Berenguer foi para Moatize, a sua primeira missão. As diferenças de classes eram muito acentuadas, mesmo nos meios urbanos. O sistema de ensino para os nativos permitia que só se estudasse até à quarta classe. Apercebeu-se disso quando viu dezenas de jovens que fariam parte do seu primeiro grupo de alunos. A educação passou a ser a sua missão.  Depois de Moatize, esteve em Changara e Angónia, na província de Tete. Nos últimos anos de Moçambique, capítulo que encerra aos 80 anos, viveu em Ressano Garcia. Quem passa na estrada a caminho da África do Sul, antes da fronteira, divisa ao largo da mesma uma escola secundária 4 de Outubro, que é obra sua. Tem outras tantas: Laulane, Nelson Mandela, ambas secundárias, ou primária Kurhula. O Padre Vicente construiu paróquias e escolas, ministrou o seu ofício de padre e ensinou.

Esteve sempre do lado da justiça social. Lutou pela libertação deste país. Arriscou, não só quando denunciou o massacre de Wiriyamu em Tete, mas quando fornecia comida, mantas, medicamentos aos combatentes: “Tínhamos que passar de baixo da ponte, burlando a tropa portuguesa.”

Vicente Berenguer haveria de testemunhar muitos anos depois: «Após o massacre, eu, juntamente com o padre Ferrão e padre Sangalo, fizemos um relatório que foi publicado pelo padre Hastings na Inglaterra. Isto criou uma polémica, mas Marcello Caetano mesmo assim desmentiu os factos. (…) Viajámos para vários países europeus para expor as atrocidades cometidas pelo regime colonial contra o povo moçambicano».

O relatório saiu de Moçambique a 20 de Fevereiro de 1973. Júlio Moure e Miguel Buendia, dois padres de Burgos, tinham sido expulsos. Ambos tinham trabalhado na diocese da Beira e não de Tete, mas sabiam dos factos. Escreve Hastings no livro-denúncia: «Conseguiu-se, no entanto, entregar ao Padre Buendia, uma hora antes da saída do avião, uma cópia do relatório sobre Wiriyamu (mas não de Chawola). Apesar de uma busca minuciosa, que durou noventa minutos, a polícia não conseguiu descobrir esse documento, que foi levado para Madrid, e aí entregue ao Superior Geral dos Padres de Burgos».

Mustafah Dhada testemunha: «A 6 de Agosto de 1973, dois padres apresentaram-se nas instalações do “London Times”: Vicente Berenguer e Júlio Moure. Ambos afirmaram conhecer a localização exacta de Wiriyamu». O regime colonial tentou descredibilizar a denúncia. Chegaram a dizer que era uma invenção dos padres, que Wiriyamu não existia. Berenguer tinha cruzado com os fugitivos e sobreviventes pero de Wiriyamu. Berenguer viajou para vários países europeus para expor as atrocidades cometidas pelo regime colonial contra os moçambicanos.

Hastings irá depor nas Nações Unidas. Marcelino dos Santos assistiu à sessão.  É desencadeada uma frente diplomática para a causa da libertação. A 25 de Abril de 1974, meses depois de Hastings fazer a sua destemida denúncia, o regime cai em Portugal.

Vicente Berenguer como Miguel Buendia só regressarão durante o Governo de Transição. Conheci o Padre Vicente através do meu amigo Miguel Buendia. Conhecia a sua história e dos seus companheiros, mas passei a admirá-lo pela sua figura compassiva e pelo extraordinário afecto que o ligava a Buendia e como ele, nos momentos lancinantes e de perda do amigo, soube mitigar uma dor que não se sublima.

Quando, há oito anos, o Padre Vicente retornou às origens, disse melancolicamente: “Eu sou filho adoptivo, mas gostaria mais de ser filho adoptivo aqui em Moçambique do que em Valência”. Isto disse-me o velho Zoni, em Changara, perante os homens que se haviam calado na aldeia, ao ver chegar o padre: «mas por que fechamos a boca se o padre Vicente é branco, mas o coração dele é negro como o nosso»?

Eu acho o velho Zoni quis dizer que Vicente Berenguer, como muitos dos Padres missionários, era profundamente moçambicano. Somos esquecidos e ingratos e outorgamos a tantos a divisa da nacionalidade e as insígnias da pátria e somos incapazes de ser justos com muitos dos que arriscaram a vida para que fôssemos livres. E até somos capazes de destratá-los, como agora a UEM faz com Miguel Buendia. O que estão a fazer ao Miguel é inqualificável. Mas também a omissão em relação a estes intrépidos Padres que se interpuseram entre a selvática actuação das forças policiais do regime colonial e as populações, ou foram defensores e protetores dos combatentes.

Moçambique é um país onde se cultiva a omissão e o opróbrio. Faz parte da nossa congénita ingratidão. A quem devíamos ser gratos votamos ao silêncio e ao descaso. Mas isso são as autoridades. Das pessoas, das populações, dos alunos, o Padre Vicente Berenguer terá sempre a gratidão, o respeito, a amizade e o reconhecimento pelo seu trabalho notável e abnegado, pela sua missão ousada e pelo exemplo de cidadania e acção social.

 Quando hoje soube do seu epílogo, lembrei-me do meu amigo Miguel Buendia e imaginei a dor profunda que o atingia. Mandei-lhe um abraço sentido. «Muito obrigado, irmão. Abraço.», respondeu ele. E fiquei em silêncio a pensar na nossa incapacidade de prezar os nossos melhores. Berenguer é para mim, como o Miguel e outros, indubitavelmente moçambicano e um dos nossos melhores. Honrá-los, enobrecer ou dignificar cada um deles, é edificar e nobilitar a nossa história individual e colectiva.

KaMpfumo, 21 de Outubro de 2025

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