Ngoenha desmonta ilusões: Moçambique não está na mesa, está no menu

Filósofo denuncia vazio intelectual, submissão global e alerta: sem pensamento próprio, África arrisca voltar ao colonialismo — agora em nova versão

A intervenção de Severino Ngoenha no evento “Arquitectura Civil da Paz”, promovido pelo Centro de Diálogo Ka-Ndzualo, não foi um exercício académico nem um discurso protocolar. Foi um ataque frontal — à forma como Moçambique pensa, ou evita pensar, o seu lugar no mundo.

Mais do que criticar, Ngoenha expôs um problema estrutural: o país vive sem pensamento estratégico próprio. Num momento em que a ordem internacional está a ser redesenhada pelas grandes potências, Moçambique — e, por extensão, África — permanece num silêncio quase absoluto. E silêncio, neste contexto, não é neutralidade: é irrelevância.

A provocação central do filósofo é simples e desconfortável: como pode um país falar de diálogo global se não tem ideias próprias? Para Ngoenha, o conceito de diálogo foi esvaziado no contexto moçambicano. O que existe não é troca de visões, mas reprodução acrítica de discursos externos. Fala-se de multilateralismo, direitos humanos ou ordem internacional como se fossem construções universais, quando, na realidade, são produtos históricos de relações de força das quais África esteve ausente.

A crítica vai mais longe. Segundo o filósofo, Moçambique aderiu a uma arquitetura internacional que nunca ajudou a construir — e que continua a reproduzir a sua subalternidade. Entrar em instituições globais como participante formal não significa ter poder real. Significa, muitas vezes, legitimar regras impostas por outros.

Neste sentido, a atual crise do multilateralismo não deveria ser motivo de lamento automático. Pelo contrário, deveria ser vista como uma oportunidade de reposicionamento. Mas isso exigiria algo que Ngoenha considera inexistente: capacidade interna de reflexão estratégica.

O diagnóstico torna-se mais duro quando se olha para dentro. Num país rico em recursos, mas marcado por pobreza estrutural, o filósofo questiona prioridades. Enquanto grande parte da população enfrenta dificuldades básicas — alimentação, educação, saúde — o debate público continua capturado por conflitos políticos, rivalidades internas e agendas fragmentadas. A pergunta implícita é devastadora: Moçambique quer ser um projeto coletivo ou apenas um espaço de disputa permanente?

No plano regional, a análise desmonta outra ilusão: a da integração na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Para Ngoenha, a organização abandonou a sua base política de solidariedade e transformou-se num mercado assimétrico, onde economias mais fortes, como a sul-africana, impõem o ritmo. O resultado é uma integração que fragiliza os mais fracos em vez de os fortalecer.

A crítica continental segue a mesma linha. A União Africana surge como uma estrutura incapaz de afirmar uma agenda autónoma, frequentemente dependente de validação externa. O pan-africanismo, outrora projeto de emancipação, parece hoje esvaziado de conteúdo político real.

Mas é na leitura do cenário global que o discurso atinge o seu ponto mais provocador. Ngoenha sugere que o mundo está a regressar, sem disfarces, à lógica de dominação. As grandes potências já não escondem a intenção de impor interesses, redefinir regras e disputar territórios estratégicos — incluindo em África. Neste contexto, países frágeis e desarticulados tornam-se inevitavelmente campos de disputa.

A implicação é clara e inquietante: se nada mudar, África arrisca não apenas repetir a história, mas vivê-la sob novas formas. O colonialismo pode já não ter o mesmo nome, mas os seus mecanismos — controlo, dependência, imposição — continuam presentes.

O ponto mais incómodo da intervenção talvez seja este: o maior risco não vem de fora, mas de dentro. Fragmentação interna, ausência de visão comum e incapacidade de definir prioridades nacionais criam as condições perfeitas para a subordinação externa.

Ngoenha não oferece soluções fáceis, mas aponta um caminho exigente: reconstruir o pensamento, redefinir a linguagem, criar espaços de reflexão autónoma e, sobretudo, assumir a responsabilidade de construir um projeto nacional e regional coerente. Sem isso, qualquer discurso sobre soberania será apenas retórica.

No fim, a mensagem não é diplomática nem conciliadora. É um aviso: num mundo de forças em confronto, quem não pensa por si não escolhe o seu destino. É escolhido.

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