Mulungo questiona regresso de Moçambique ao FMI após pagamento antecipado da dívida

Jornalista e colaborador sénior do CDD questiona a estratégia financeira do Governo e a capacidade de Moçambique transformar recursos naturais em resultados económicos e sociais

O jornalista e colaborador sénior do Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD), André Mulungo, questiona a estratégia financeira do Governo moçambicano, estabelecendo um contraste entre o pagamento antecipado da dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), efectuado em Março deste ano, e as actuais negociações para um novo programa apoiado pela mesma instituição.

Numa publicação na sua conta do Facebook, Mulungo critica aquilo que considera uma contradição entre a celebração do pagamento antecipado da dívida ao FMI como sinal de redução da dependência externa e o actual regresso às negociações com o Fundo.

Os dados oficiais do FMI confirmam que, a 24 de Março de 2026, Moçambique efectuou dois pagamentos ao abrigo do Poverty Reduction and Growth Trust (PRGT), num total de 514,04 milhões de Direitos Especiais de Saque (SDR), correspondentes às obrigações que permaneciam pendentes. Com essas operações, o saldo em dívida de Moçambique ao FMI passou a zero.

Poucos meses depois, em 8 a 12 de Junho, uma equipa do FMI esteve em Maputo para avaliar a situação económica do país. No final da missão, o Fundo revelou que tinha discutido com as autoridades moçambicanas o pedido de um novo acordo apoiado pelo FMI, tendo anunciado que regressaria ao país para aprofundar as conversações.

As discussões avançaram em Setembro. Entre 9 e 18 de Setembro, uma nova missão do FMI esteve em Maputo e manteve encontros com a Primeira-Ministra Maria Benvinda Levi, a ministra das Finanças, Carla Loveira, o governador do Banco de Moçambique, Felisberto Navalha, deputados, sector privado, sociedade civil e parceiros de desenvolvimento.

No comunicado de 18 de Setembro, o FMI confirmou que a missão discutiu com as autoridades moçambicanas as reformas que poderão sustentar um novo programa apoiado pelo Fundo. A instituição refere que as conversações sobre as reformas necessárias para abrir caminho ao programa continuarão nos próximos meses.

É neste contexto que surge a reflexão de André Mulungo.

Para o jornalista, a questão não está necessariamente no recurso ao financiamento internacional. O problema, na sua perspectiva, está na persistência da dependência externa de um país que dispõe de importantes recursos naturais.

Mulungo questiona por que razão Moçambique, apesar das reservas de gás, carvão, ouro, rubis, grafite, turmalinas, areias pesadas e outros recursos, continua com dificuldades para transformar essa riqueza em capacidade financeira capaz de impulsionar a produção, criar emprego e melhorar as condições de vida da população.

“A questão não é pedir apoio internacional”, escreve, defendendo que diferentes países recorrem a instituições financeiras internacionais em determinadas circunstâncias. Para o jornalista, a discussão deve centrar-se na capacidade do país de utilizar os seus próprios recursos para construir maior autonomia económica.

A reflexão coloca, assim, no centro do debate a aparente contradição entre a liquidação antecipada da dívida ao FMI em Março e a apresentação, em Junho, de um pedido de novo programa, seguida das negociações realizadas em Setembro.

Mais do que questionar a legitimidade de recorrer novamente ao FMI, a análise de Mulungo levanta uma questão sobre o modelo de desenvolvimento de Moçambique: como transformar a riqueza dos recursos naturais em capacidade económica interna, produção, emprego e melhoria das condições de vida, reduzindo progressivamente a dependência de financiamento externo?

Até ao momento, os dados oficiais do FMI indicam que o novo programa ainda está em fase de discussão e não constitui um novo empréstimo já aprovado.

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