Messalo, em Cabo Delgado, volta a entrar em alerta: histórico de cheias expõe vulnerabilidade crónica das comunidades ribeirinhas

Ultrapassagem do nível na estação de Nairoto reacende memória de inundações recorrentes e testa capacidade preventiva do Estado

A bacia do rio Messalo voltou a entrar numa zona crítica após a estação hidrométrica de Nairoto ultrapassar o nível de alerta, segundo dados da Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos (DNGRH), partilhados na noite dessa quarta-feira. O Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE) activou acções antecipadas face ao risco de cheias severas que podem atingir comunidades ribeirinhas nos próximos dias.

Embora os alertas hidrométricos façam parte da rotina do período chuvoso no norte do País, o histórico da região mostra que o Messalo não é um rio qualquer: trata-se de uma bacia com registo de transbordos frequentes durante épocas de precipitação intensa, afectando sobretudo distritos da província de Cabo Delgado.

Nos últimos anos, eventos de precipitação extrema – muitos associados a sistemas tropicais e ciclones – provocaram cheias significativas em várias bacias hidrográficas do norte, incluindo o Messalo. Comunidades agrícolas instaladas em zonas férteis próximas ao leito do rio são as primeiras a sofrer perdas, tanto em habitações como em produção alimentar.

O padrão é conhecido: subida rápida do caudal, isolamento de povoados, destruição de culturas e, em casos mais graves, deslocação temporária de famílias. A vulnerabilidade estrutural mantém-se, sobretudo em áreas onde a ocupação das margens ocorre por necessidade económica e falta de alternativas seguras.

Diante do actual cenário das cheias e inundações, o CENOE determinou a massificação de mensagens de aviso prévio através do INCM, ICS, rádios comunitárias e comités locais de gestão de risco. Também recomendou evacuação preventiva, com prioridade para crianças, idosos, mulheres grávidas e pessoas com deficiência.

As autoridades apelam ao abandono das zonas de risco, à retirada de equipamentos agrícolas das áreas ribeirinhas e à preparação prévia de centros de acomodação com condições mínimas de água e saneamento.

Especialistas em gestão de risco apontam que a eficácia destas medidas depende da rapidez da comunicação e da adesão comunitária. Historicamente, parte da população resiste à evacuação antecipada por receio de perder bens ou meios de subsistência, o que aumenta o risco humano quando o nível das águas sobe de forma abrupta.

Outro ponto crítico é a transitabilidade. Durante episódios anteriores de cheias, estradas vicinais tornaram-se intransitáveis, dificultando operações de socorro e acesso a mercados. O CENOE orientou as autoridades locais a avaliarem as vias potencialmente comprometidas e apelou aos automobilistas para que se informem antes de circular.

A travessia de rios em zonas inundadas – uma prática ainda comum em áreas rurais – continua a ser uma das principais causas de fatalidades durante cheias, segundo dados históricos de gestão de desastres no País.

O agravamento da frequência e intensidade de eventos extremos tem sido associado ao fenómeno das mudanças climáticas. Moçambique figura entre os países mais vulneráveis a choques climáticos em África, com impactos recorrentes em infra-estruturas, segurança alimentar e deslocações internas.

A situação no Messalo surge, assim, não como um evento isolado, mas como parte de um ciclo cada vez mais intenso de variabilidade climática que desafia a capacidade de prevenção, planeamento territorial e resiliência comunitária.

A evolução dos níveis hidrométricos continuará a ser monitorada. Para as comunidades ribeirinhas, contudo, o alerta já não é apenas técnico – é também histórico.

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