Num tempo de excesso e velocidade, Isabel Novella escolhe o gesto inverso: desacelerar, escutar e recordar. Karingana, single com lançamento marcado para 26 de Janeiro (nas plataformas digitais), nasce como convite à escuta e à reconexão com a tradição da oralidade africana. É um trabalho que privilegia a voz, a narrativa e o tempo da escuta.
Em entrevista à Lupa News, a cantora moçambicana reflecte sobre maturidade artística, partilha os contornos do novo capítulo que se abre na sua carreira e antecipa um 2026 mais introspectivo, orientado pela criação, pela identidade e pela profundidade. Acompanhe a seguir, as respostas de Isabel Novella à Lupa News.
Acaba de anunciar o lançamento de Karingana para 26 de Janeiro. O que é Karingana e o representa neste momento da sua carreira?
Karingana é o titulo do meu novo single e nasce como um convite à escuta e à reconexão com as nossas raízes e com o poder da palavra. Inspira-se na tradição africana da oralidade, a transmissão de histórias, valores e ensinamentos de geração em geração, à volta da fogueira.
Neste momento da minha carreira, Karingana representa maturidade e um olhar mais consciente para a essência: a voz, a narrativa e o tempo da escuta. É um single que não fecha um ciclo, mas abre um novo capítulo da minha Novella musical.
Em que contexto criativo nasceu este single?
Esta música nasceu num momento de silêncio, observação e desaceleração. De uma vontade de olhar para dentro e também para trás, de regressar às histórias e aos princípios que nos formam enquanto comunidade. O tema inspira-se também na expressão tradicional “Karingana ua Karingana”, usada para anunciar o início de uma história. A essa chamada, os ouvintes respondem “Karingana”, confirmando que estão prontos para escutar com atenção. Antes da escrita, era a voz que guardava a memória colectiva e é a essa escuta que este single regressa e convida.
O meu Karingana é esse gesto de disponibilidade, esse “sim” à escuta. E o convite é que quem ouve responda também: Karingana.
Este lançamento fecha um ciclo, inaugura um novo ou é uma continuidade?
Não sinto que esteja a fechar um ciclo neste momento, porque não há nenhum ciclo no meu percurso que eu sinta necessidade de encerrar. Karingana inaugura, sim, um novo capítulo dentro do meu caminho criativo. É a porta de entrada para um novo álbum, mais introspectivo, que se vai desenvolver ao longo de 2026.
Como foi o processo de criação de Karingana? Que sonoridades, temas ou linguagens atravessam este trabalho? Houve riscos estéticos que decidiu assumir em Karingana?
O processo de criação de Karingana foi muito orgânico. Trabalhei a partir da voz, do ritmo, da respiração e de sons, deixando que a canção se construísse com tempo e escuta.
Em termos de sonoridade, o tema cruza elementos da tradição africana com uma linguagem contemporânea de influência jazzística, criando uma atmosfera intimista e orgânica. A voz assume um lugar central, acompanhada por uma construção musical que privilegia a proximidade, o detalhe e a respiração do som.
Tenho ao meu lado uma pessoa muito importante, que compreende e complementa naturalmente as minhas ideias criativas: o produtor deste single e do álbum, Isildo Novela, baixista, compositor e também meu irmão. Criar juntos tem sido um processo muito honesto, baseado no diálogo e na confiança, e algo que nos deixa, aos dois, profundamente orgulhosos.
O principal risco estético foi optar por menos ornamento e menos excesso, confiando na força da voz, da narrativa e da emoção. Num tempo em que tudo tende a ser rápido e imediato, Karingana nasce dessa escolha consciente de desacelerar e escutar.
Quem é a Isabel Novella que chega a 2026?
É a mesma Isabel Novella, hoje mais consciente do seu lugar, do seu tempo e da sua responsabilidade. Vou crescendo por dentro e por fora, e isso reflecte-se naturalmente no que faço. Continuo tranquila, firme nas minhas escolhas e profundamente conectada com a minha identidade.
O que mudou na sua relação com a música, o público e a indústria?
Mudou a forma como escuto e como escolho. Hoje, privilegio processos mais honestos, relações mais humanas e um ritmo que respeite a criação.
A relação com o público sempre foi baseada no respeito e na troca. Eu crio, o público escuta, identifica-se ou não e é nesse encontro que a música ganha sentido.
Em relação à indústria, aprende-se muito com os processos: filtra-se, cresce-se e segue-se em frente.
Que batalhas sente que já venceu e quais ainda trava?
Derrubei muitas barreiras ao longo do caminho, sobretudo por fazer uma música diferente, que não se encaixava nos formatos mais comerciais do seu tempo. Num contexto em que misturar línguas, referências e linguagens não era visto como algo comercial, consegui ainda assim conquistar o meu lugar e o meu público, dentro e fora.
Hoje, continuo a travar a batalha de existir num sistema que nem sempre acolhe linguagens fora do centro, mas isso faz parte do caminho. O mais importante para mim é manter-me fiel ao que acredito e continuar a fazer música com alma e sentimento.
Que tipo de 2026 está a desenhar para sí?
Um 2026 com mais criação e uma circulação mais intencional do meu trabalho. Menos pressa, mais intenção e mais sentido. Há um álbum a caminho e outros projetos a ganhar forma .
Que lugar gostaria que Karingana ocupasse no imaginário do público?
Gostaria que Karingana fosse um lugar de escuta. Um espaço onde as pessoas se sintam convidadas a parar, ouvir e recordar que a palavra, o diálogo e a partilha têm um lugar essencial na nossa construção enquanto seres humanos e enquanto sociedade.
O que este single diz sobre o caminho que está a construir?
Diz que estou a construir um caminho fiel à minha identidade, sem pressa de encaixar em fórmulas ou expectativas externas, mas com vontade de permanecer na escuta, na criação e numa relação duradoura com a música e com o público.
O que o público pode legitimamente esperar de Isabel Novella em 2026?
Pode esperar coerência, profundidade e continuidade. Um trabalho pensado como percurso, não como um produto isolado.
Que mensagem deixa a quem vai escutar Karingana a partir do dia 26 de Janeiro?
Que escute com tempo. E que se permita “sentar à volta da fogueira”.
Moçambique está a atravessar um momento particularmente difícil coma ocorrência das cheias e inundações, que palavra gostaria de deixar em torno dessa situação principalmente às vítimas?
Neste momento, a minha palavra é de profunda solidariedade com Moçambique e com todas as pessoas afectadas pelas cheias. Mesmo à distância, estou a acompanhar com atenção e em espírito de apoio.
Que quem está em segurança possa acolher e ajudar quem precisa oferecendo uma mão, um abrigo, presença. Que as pessoas nas zonas de risco sejam prudentes e sigam as orientações de evacuação, porque preservar a vida é essencial. É tempo de darmos as mãos e estarmos presentes uns para os outros. Cada gesto de solidariedade, por pequeno que pareça, faz uma enorme diferença.