Uma investigação internacional conduzida pelo consórcio Forbidden Stories, com a participação de mais de 30 jornalistas de dez órgãos de comunicação social, lança novas suspeitas sobre uma escalada de violência política em Moçambique, marcada por raptos, desaparecimentos forçados e assassinatos de críticos do poder. O trabalho jornalístico descreve o que poderá ser uma campanha sistemática de perseguição contra jornalistas, opositores políticos e activistas, particularmente após as eleições gerais de Outubro de 2024.
No centro da investigação está o desaparecimento do jornalista Arlindo Chissale, editor do portal Pinnacle News, raptado em Janeiro de 2025, na província de Cabo Delgado. Segundo relatos citados por fontes internacionais, Chissale terá sido retirado à força de um transporte público por homens armados, alguns dos quais vestidos com fardas policiais. Desde então, o seu paradeiro permanece desconhecido.
Quase um ano e meio depois, não há qualquer confirmação oficial sobre o seu destino. Mas o caso é apresentado como parte de um quadro mais amplo.
A investigação aponta para dezenas de casos semelhantes envolvendo figuras ligadas à oposição política, mobilizadores partidários e jornalistas críticos. O padrão descrito inclui vigilância, intimidação, raptos e, em alguns casos, assassinatos.
Entre Outubro de 2024 e os primeiros meses de 2025, o país terá registado uma onda de violência pós-eleitoral sem precedentes recentes, após a contestação dos resultados eleitorais pela oposição, que denunciou alegadas irregularidades no processo.
A crise política foi acompanhada por protestos em várias cidades, numa escalada de tensão entre forças de segurança e apoiantes da oposição.
Um dos episódios mais marcantes foi o assassinato do advogado Elvino Dias, figura ligada à equipa jurídica da oposição, morto a tiro em Maputo em Outubro de 2024. O caso permanece sem uma conclusão pública detalhada.
A investigação também descreve alegações de utilização de estruturas locais de vigilância comunitária, conhecidas como “chefes de quarteirão”, para monitorar residentes e identificar simpatizantes da oposição. Segundo testemunhos recolhidos, estas estruturas teriam fornecido informações sobre movimentos e actividades de cidadãos a níveis superiores de organização política e de segurança.
Fontes citadas pelo consórcio apontam ainda para a possível participação ou envolvimento de indivíduos ligados a unidades policiais e de investigação criminal, incluindo o SERNIC e outras forças especiais, em alguns dos casos analisados.
Outro ponto da investigação revisita o desaparecimento do empresário português Américo Sebastião, ocorrido em 2016 na província de Sofala, sugerindo possíveis ligações com elementos das forças de segurança. O caso continua sem resolução.
As organizações de direitos humanos têm vindo a expressar preocupação crescente com o cenário pós-eleitoral em Moçambique. Relatórios citados pela investigação apontam falhas graves na condução de investigações sobre assassinatos políticos e desaparecimentos forçados, bem como denúncias de detenções arbitrárias e uso excessivo da força.
Para familiares dos desaparecidos, o impacto é permanente. Sem corpos, sem explicações e sem justiça, muitas famílias vivem num estado de incerteza contínua, entre o luto e a esperança.
O caso de Arlindo Chissale tornou-se simbólico dessa realidade: um jornalista descrito por colegas como crítico, atento e profundamente ligado à sua comunidade, que desapareceu sem deixar rasto após anos de cobertura sobre corrupção, conflito e fragilidades institucionais no norte do país.
A investigação da Forbidden Stories não apresenta conclusões judiciais, mesmo assim, levanta questões profundas sobre o estado das liberdades civis, segurança dos cidadãos e responsabilização das instituições em Moçambique.
Enquanto não houver respostas claras, os desaparecimentos continuarão a ser mais do que casos isolados: serão perguntas em aberto no coração do sistema político moçambicano.