Moçambique entrou numa fase crítica da actual época chuvosa, com o número de pessoas afectadas a ultrapassar 723 mil e o total de mortos a subir para 124, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). Em poucas horas, o balanço agravou-se em quase 40 mil novos afectados, um crescimento que traduz a velocidade com que a crise se expande e a dificuldade das autoridades em conter os impactos das cheias generalizadas que assolam o país.
De acordo com a base de dados do INGD, que cobre o período de 1 de Outubro até ontem, mais de 153 mil famílias viram a sua vida directamente atingida pelas chuvas, com quase cinco mil casas totalmente destruídas e mais de 11 mil parcialmente danificadas. Só desde 7 de Janeiro, quando as cheias se intensificaram, foram contabilizadas 585.627 pessoas afectadas,13 mortes, dois feridos e quatro desaparecidos, num cenário em que centenas de famílias continuam sitiadas pelas águas, sobretudo no sul, à espera de resgate.
O que se vive no terreno já ultrapassa a lógica do desastre pontual e aproxima-se de uma crise humanitária prolongada. Estão activos 90 centros de acomodação, acolhendo 92.792 pessoas, entre elas mais de 17 mil resgatadas. Paralelamente, o colapso atinge serviços vitais: 150 unidades sanitárias e 146 escolas foram afectadas, além da destruição de três pontes e de 1.297 quilómetros de estradas, comprometendo o acesso a cuidados de saúde, educação, circulação de bens e operações de socorro.
A dimensão económica e social da tragédia é igualmente profunda. O INGD reporta 60.544 hectares de área agrícola afectados, atingindo 83.370 agricultores, e a morte de 58.621 cabeças de gado, um golpe directo na segurança alimentar e no rendimento de milhares de famílias rurais. As cheias não estão apenas a destruir casas; estão a desarticular os meios de subsistência, empurrando comunidades inteiras para a dependência da assistência humanitária.
No terreno, continuam operações complexas de busca e salvamento, muitas vezes limitadas pelas condições meteorológicas e pela subida contínua dos rios, agravada pelas descargas intensas de barragens, incluindo em países vizinhos. Estão mobilizados cerca de 20 meios aéreos, nacionais e estrangeiros, além de embarcações da Marinha de Guerra e privadas, numa corrida contra o tempo para retirar famílias refugiadas em telhados, árvores e pequenas elevações, sobretudo em Maputo e Gaza.
Mais do que um episódio extremo, os números expõem um país confrontado, mais uma vez, com a convergência entre vulnerabilidade estrutural, pressão climática e limites de resposta, num ciclo em que cada chuva forte deixa de ser apenas um fenómeno natural para se transformar num teste severo à capacidade de protecção do Estado e de sobrevivência das comunidades.