Estado aposta no gás para acelerar industrialização com nova sociedade estratégica

ENH, EDM, CFM e HCB unem-se para criar empresa que vai garantir fornecimento de gás ao mercado doméstico e reduzir dependência energética externa.

Moçambique deu mais um passo na consolidação da sua estratégia energética e industrial com a assinatura de um acordo que promete transformar o acesso ao gás natural no país. A Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), a Electricidade de Moçambique (EDM), os Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) e a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) formalizaram, no dia 8 de Abril, a criação da sociedade Serviços de Logística Integrada de Gás Natural de Moçambique, S.A. (SLIGM).

O acordo, firmado em Maputo, inclui também um Acordo de Desenvolvimento Conjunto (JDA), estabelecendo as bases para um dos mais relevantes projectos energéticos da actualidade: a instalação de uma Unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação (FSRU) de Gás Natural Liquefeito (GNL), que será posicionada ao largo do norte de Inhambane, com infra-estruturas logísticas complementares no Porto da Beira.

Do ponto de vista económico, trata-se de uma aposta clara na criação de uma cadeia de valor interna para o gás natural, com impacto directo na industrialização. A nova infra-estrutura deverá aumentar significativamente a capacidade de fornecimento de gás ao mercado doméstico e regional, criando condições para o surgimento e expansão de indústrias intensivas em energia.

Ao assumirem conjuntamente o financiamento, construção e operação do terminal de GNL, as quatro empresas públicas consolidam um modelo de integração vertical no sector energético, reduzindo dependências externas e fortalecendo o controlo nacional sobre recursos estratégicos.

Outro elemento central do projecto é a monetização do gás doméstico, sobretudo o proveniente da Bacia do Rovuma, frequentemente apontado como um dos maiores activos económicos do país. A iniciativa abre espaço para que parte destes recursos seja canalizada para o consumo interno, contrariando a lógica predominante de exportação e promovendo maior valor acrescentado local.

A criação da SLIGM surge na sequência da aprovação, em Novembro de 2025, pelo Conselho de Ministros, do decreto que atribui a concessão para a construção e operação de infra-estruturas de recepção, armazenamento, regaseificação e transporte de gás natural em Inhassoro e no Porto da Beira.

Para os accionistas, o projecto representa mais do que uma infraestrutura energética: é um instrumento de política económica com potencial de gerar efeitos multiplicadores, desde a redução de custos energéticos até à dinamização do tecido industrial e à criação de empregos.

Ainda assim, o sucesso da iniciativa dependerá da capacidade de execução, da sustentabilidade financeira do projecto e da sua articulação com o sector privado, factores que historicamente têm condicionado o ritmo de implementação de grandes projectos em Moçambique.

Se bem-sucedido, o empreendimento poderá marcar uma viragem estrutural na economia nacional, posicionando o gás natural não apenas como recurso de exportação, mas como motor efectivo da industrialização e do desenvolvimento interno.

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