Durante um encontro com jornalistas realizado esta semana em Maputo, após a divulgação dos resultados financeiros do Grupo Nedbank para 2025, a administração do banco analisou também os principais desafios estruturais do sistema financeiro moçambicano.
Num País onde cerca de 20 milhões de pessoas utilizam carteiras móveis, mas apenas 6 milhões possuem conta bancária tradicional, o desafio da banca já não é apenas promover inclusão financeira – é convencer o cliente a permanecer no sistema bancário formal.
O CEO do Nedbank Moçambique considera que este é um dos grandes paradoxos do mercado financeiro nacional.
“Hoje vemos uma inclusão financeira que acontece fora do sistema bancário tradicional. O desafio para os bancos é demonstrar valor real ao cliente”, afirmou Joel Rodrigues.
Segundo o gestor, a inclusão financeira sustentável não pode ser imposta.
“Inclusão financeira não funciona por imposição. Funciona quando o cliente percebe valor. Isso implica produtos acessíveis, educação financeira e soluções digitais que sejam realmente convenientes.”
O grupo reporta actualmente cerca de 8 milhões de clientes digitais no universo consolidado das suas operações.
O gás como catalisador económico
A retoma dos projectos de gás natural em Cabo Delgado é vista pelo banco como um potencial ponto de inflexão estrutural para a economia moçambicana.
Em Moçambique, o Nedbank gere um balanço aproximado de 35 mil milhões de meticais, integrando um grupo com activos na ordem dos 90 mil milhões de dólares.
Neste contexto, a estratégia passa por financiar não apenas os megaprojectos energéticos, mas todo o ecossistema económico que deles emerge.
Isso inclui: financiamento de infra-estruturas; apoio a PME integradas na cadeia de valor do gás; estruturação de parcerias público-privadas; financiamento de logística, hospitais e serviços associados.
A lógica, segundo o banco, é clara: o impacto económico do gás depende da capacidade de desenvolver toda a cadeia de valor que se forma em torno dos projectos principais.
Crédito malparado sob controlo
Durante o encontro com a imprensa, a administração do banco afirmou que os níveis de crédito malparado (NPL) se mantêm abaixo da média do mercado ao longo dos seus 15 anos de operação em Moçambique.
Embora não tenham sido divulgados números específicos, os gestores reconheceram que, no sector bancário, mesmo variações aparentemente pequenas exigem monitorização permanente.
Num ambiente económico volátil, controlo rigoroso de risco torna-se uma vantagem competitiva.
Um modelo híbrido para o futuro
A estratégia do Nedbank não se centra num único segmento de mercado.
O banco aposta num modelo híbrido, que combina: retalho digital; financiamento a PME e empreendedores; banca corporativa; project finance para grandes investimentos.
A visão estratégica é posicionar o banco como parte activa da solução económica, financiando crescimento, protegendo poupanças e integrando tecnologia.
Num cenário marcado por pressões inflacionárias, incerteza cambial, retoma do gás e aceleração digital, o Nedbank procura afirmar-se como um banco prudente na gestão de risco e ambicioso na expansão.
A questão que permanece é estratégica: Conseguirá a banca tradicional reinventar-se com rapidez suficiente num País onde o telemóvel está vencendo o balcão?