Amosse Mucavele
A linha férrea Sul–Norte de Moçambique é, provavelmente, o projecto de infraestruturas mais estável e ambicioso do país: atravessou décadas, governos, congressos, shomicios e discursos solenes sem nunca sofrer o desgaste de uma única obra. Segundo a FRELIMO, a ideia existe desde os anos 80, repousando serenamente nos documentos orientadores ali na rua Pereira do Lago, onde permanecem até hoje limpos, intactos e absolutamente funcionais no papel ( que certamente poucos membros têm acesso aos mesmo).
Sempre que alguém questiona por que razão a linha nunca saiu do arquivo para o terreno, a resposta “implícita” parece ser: porque ainda não chegou a sua vez histórica. Ou talvez porque os documentos foram feitos para orientar… mas não necessariamente para serem lidos, muito menos executados. Afinal, governar é uma coisa; cumprir o que está escrito é outra bem mais exigente ( precisa seguir as diferenças e a suposta continuidade dos diferentes ciclos governamentais).
O problema começa quando Venâncio Mondlane resolve cometer a ousadia de falar alto sobre a mesma linha férrea no seu manifesto. De súbito, o que era visão estratégica transforma-se em devaneio eleitoral. A ideia deixa de ser “nossa desde sempre” e passa a ser “irrealista”, “inviável” e, pior ainda, “perigosa”. Não pelo custo, nem pela engenharia, mas pelo simples facto de alguém fora do círculo habitual ter aberto o documento certo na página errada.
Para completar o quadro, surge o então ministro dos Transportes ( o estratega do comboio de alta velocidade que iria ligar Maputo – Matola no consulado do edil David Simango) a explicar, com a mestria, números do Banco Mundial, a linguagem do consultor sénior e a serenidade de quem fala do óbvio, que o projecto é inviável. O que levanta uma questão: a FRELIMO passou mais de 40 anos a defender, nos seus textos, um projecto que sabia ser inviável, ou só descobriu a inviabilidade quando alguém resolveu levá-lo a sério? Em qualquer dos casos, o embaraço é inevitável.
No final, a linha férrea Sul–Norte continua “exemplarmente” coerente com a tradição política nacional: existe para ser citada, não para ser construída. Liga discursos, não províncias; atravessa manifestos, não territórios; e cumpre com distinção a sua principal função: provar que, em Moçambique, a maior distância não é entre o Sul e o Norte, mas entre o que se escreve e o que se faz.
E assim o país avança.