“A cultura para mim é uma espécie de sacerdócio.”
David Abílio continua ligado à cultura moçambicana, apesar de ter encerrado oficialmente a sua carreira em 2015. A trajectória, iniciada em 1975, atravessa diferentes momentos do desenvolvimento das artes cénicas em Moçambique, com destaque para a dança, coreografia e formação artística.
“A cultura para mim é uma espécie de sacerdócio”, disse David Abílio à Lupa News, numa breve conversa mantida na manhã desta quarta-feira, poucos dias depois do seu aniversário, celebrado na segunda-feira, 5 de Julho.
Com uma postura descontraída e uma voz marcada por energia, o artista explicou que a reforma não significou o afastamento da actividade cultural.
“Continuo a contribuir com aquilo que puder”, afirmou.
A sua visão sobre a própria vida revela uma relação diferente com o passado. “Já não conto os anos que passaram. O que passou, já vivi. Agora vivo os anos que me restam. Que Deus me dá a cada dia”, declarou.
A dimensão da influência de David Abílio é destacada pelo artista Gilberto Mendes, que, numa mensagem publicada nas redes sociais por ocasião do aniversário, recordou o papel desempenhado pelo mestre no seu percurso artístico.
Mendes conta que conheceu David Abílio no Mutumbela Gogo e que voltou a contar com a sua orientação quando criou o Gungu. Segundo o testemunho, Abílio acompanhava espectáculos, analisava textos, sugeria coreografias, corrigia movimentos e chamava atenção para aspectos que poderiam passar despercebidos.
Para Mendes, essa influência contribuiu para a construção da linguagem estética do Gungu, particularmente na relação entre corpo, música, coreografia e identidade cultural.
A passagem de David Abílio pela Companhia Nacional de Canto e Dança constitui outro dos principais capítulos da sua carreira. O trabalho desenvolvido naquele espaço contribuiu para a valorização da dança e das expressões culturais moçambicanas através dos palcos nacionais e internacionais.
O seu percurso está igualmente associado ao Cine-Teatro África, espaço que Gilberto Mendes considera ter desempenhado um papel central na dinâmica cultural de uma determinada geração de artistas.
Cinco décadas depois do início da sua carreira, o artista continua a defender a cultura como uma área que exige compromisso permanente. A sua frase, recordada por Gilberto Mendes – “Todos somos poucos para o que temos que fazer pela cultura” – resume uma concepção de cultura baseada na participação e na responsabilidade colectiva.
A reforma de 2015 encerrou formalmente uma etapa profissional. Mas David Abílio continua disponível para contribuir.
E, para um homem que define a cultura como sacerdócio, essa distinção é essencial: a carreira pode terminar; o compromisso, não.