Analista defende que a tragédia de Zavala deve levar o Governo a repensar a segurança e a modernização da principal estrada do país
A tragédia rodoviária que matou 24 pessoas na região de Helene, distrito de Zavala, na província de Inhambane, deve ser analisada para além do comportamento individual dos condutores, defende Damião Cumbane, que chama atenção para as condições da Estrada Nacional Número 1 (EN1), a fiscalização rodoviária e a crescente pressão sobre a principal ligação rodoviária do país.
Cumbane, que afirma conhecer bem a zona onde ocorreu o acidente, diz ter ficado particularmente impressionado com as imagens e descrições do sinistro, considerando difícil imaginar que 24 vidas tenham sido interrompidas em poucos instantes.
O acidente ocorreu na noite de 17 de Setembro e envolveu uma Toyota Quantum de transporte de passageiros e um camião das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). Segundo informações oficiais divulgadas após o sinistro, 24 pessoas morreram e duas ficaram feridas. As causas preliminares apontadas pela Polícia incluem excesso de velocidade, fadiga e ultrapassagem irregular.
“Não podemos apontar apenas o erro humano”
Na leitura de Cumbane, a investigação dos acidentes rodoviários não deveria concentrar-se exclusivamente no comportamento dos condutores.
O analista compara a abordagem dos acidentes rodoviários com a investigação de acidentes aéreos, onde, segundo afirma, é comum procurar uma combinação de factores que possa ter contribuído para a ocorrência.
“Na condução rodoviária, temos o hábito de só apontar o erro humano, como a única causa de todas as nossas desgraças estradais”, considera.
Para Cumbane, as características da EN1, incluindo as suas dimensões, qualidade e sinalização horizontal e vertical, também devem integrar a análise das causas e dos riscos associados à circulação rodoviária.
“A nossa EN1 é uma estrada muda, os condutores não conseguem falar com ela”, afirma, numa crítica às condições da via e à insuficiência, na sua perspectiva, dos mecanismos que deveriam orientar e proteger os automobilistas.
Fiscalização também entra no debate
Outro aspecto levantado pelo analista é a fiscalização da circulação de passageiros e mercadorias ao longo da EN1.
Cumbane questiona como uma viatura que transportava dezenas de pessoas poderia ter passado por vários postos de fiscalização ao longo do trajecto sem que uma eventual sobrelotação fosse detectada.
Na sua opinião, a fiscalização deveria ser suficientemente rigorosa para impedir situações que representem riscos acrescidos para os passageiros e demais utentes da estrada.
O comentário surge num contexto em que as autoridades já anunciaram medidas relacionadas com a actuação policial na sequência do acidente. Esta segunda-feira, o comandante-geral da PRM anunciou a suspensão de quatro agentes de trânsito afectos ao posto de Lindela, próximo do local da tragédia.
Modernização da EN1 como desafio nacional
Cumbane defende, entretanto, que a discussão não deve limitar-se à fiscalização ou à responsabilização dos condutores envolvidos no acidente.
Para o analista, a modernização da EN1 deveria constituir um desafio de governação, tendo em conta o crescimento do parque automóvel e a importância da estrada para a circulação de pessoas e mercadorias entre o Norte e o Sul do país.
Na sua avaliação, mesmo nos troços onde decorrem obras de reabilitação, seria necessário pensar também em soluções que respondam às necessidades futuras da estrada, e não apenas à recuperação das condições existentes.
Cumbane sustenta que uma estrada moderna deve reduzir as possibilidades de colisões frontais e oferecer melhores condições de circulação e orientação aos condutores.
O analista afirma ainda que já conduziu, noutras estradas e em outros países, a velocidades superiores a 180 quilómetros por hora sem experimentar o mesmo risco de colisão frontal, atribuindo essa diferença às características e aos padrões de segurança das respectivas vias.
Prioridades de investimento em debate
A reflexão de Cumbane estende-se às prioridades de investimento público, particularmente perante a decisão de avançar com a construção da futura sede da Assembleia da República em Mocuba, na Zambézia.
A Comissão Permanente da Assembleia da República anunciou que o lançamento da primeira pedra da futura Cidade Parlamentar está previsto para 19 de Outubro. Documentos de suporte ao PESOE 2026 indicam uma dotação de 500,9 milhões de meticais para o projecto.
É neste contexto que Cumbane questiona a prioridade atribuída ao empreendimento perante as necessidades existentes na rede rodoviária e noutras infra-estruturas públicas.
“Entre a reabilitação da EN1, que dá a vida ao país, do Norte ao Sul e vice-versa, e ir-se construir uma nova sede da Assembleia da República em Mocuba, onde reside a prioridade?”, questiona.
Na sua perspectiva, a construção da nova sede parlamentar deveria ser secundarizada perante problemas que considera mais urgentes, como a situação das estradas, hospitais e escolas.
A posição de Cumbane coloca, assim, a tragédia de Zavala num debate mais amplo sobre segurança rodoviária, qualidade das infra-estruturas, fiscalização e prioridades de investimento público.
Enquanto prosseguem as investigações às circunstâncias do acidente, a discussão sobre as condições da EN1 ganha novo relevo, sobretudo numa estrada que assegura uma parte essencial da circulação rodoviária entre as diferentes regiões do país.