Dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) indicam que 123.495 pessoas, correspondentes a 23.810 famílias, foram afectadas em diferentes pontos do país, num balanço que já contabiliza oito óbitos.
Por detrás destes números está um cenário de deslocações forçadas, perda de habitações e ruptura de meios de sobrevivência. Pelo menos 2.701 casas foram parcialmente destruídas, 1.088 totalmente arrasadas e 19.266 inundadas, um retrato que evidencia não apenas a violência das chuvas, mas também a fragilidade estrutural das zonas habitacionais mais expostas. Cada casa perdida ou alagada representa famílias obrigadas a procurar abrigo temporário, a reconstruir do zero e a reorganizar a vida em contexto de incerteza.
O impacto estende-se às infra-estruturas essenciais. O registo de oito unidades sanitárias danificadas compromete o acesso aos cuidados de saúde justamente num período em que aumentam os riscos de doenças de origem hídrica. A destruição de três pontes traduz-se em comunidades isoladas, dificuldades de circulação e entraves ao escoamento de bens.
Também o sector produtivo sofre um golpe severo. A morte de 1.396 animais, entre bovinos, caprinos e aves, representa mais do que perdas patrimoniais: significa quebra imediata de rendimento, insegurança alimentar e redução da capacidade de recuperação das famílias rurais, para quem o gado e a avicultura são reserva económica e fonte directa de sustento.
O balanço, ainda provisório, aponta para um padrão recorrente: sempre que a chuva se intensifica, os seus efeitos multiplicam-se sobre territórios marcados por habitação precária, infra-estruturas vulneráveis e dependência directa dos recursos naturais. Mais do que episódios isolados, os dados do INGD revelam um ciclo de exposição e perda que se repete a cada época chuvosa, transformando eventos climáticos em crises humanitárias localizadas.
Num contexto em que as previsões apontam para a continuidade de precipitação intensa, o quadro permanece em evolução. Cada novo dia de chuva pode acrescentar nomes às estatísticas, casas à lista de destruídas e comunidades ao mapa da vulnerabilidade. Para além da resposta de emergência, os números agora divulgados recolocam no centro do debate a urgência de estratégias estruturais de prevenção, ordenamento do território e redução do risco, sem as quais a contabilidade das cheias continuará a crescer — em pessoas, em perdas e em vidas interrompidas.
O Governo moçambicano convocou para hoje uma sessão extraordinária do Conselho de Ministros para avaliar a situação da atual época chuvosa.