A tradicional celebração de Gwaza Muthini, uma das mais emblemáticas do sul de Moçambique, não terá este ano o habitual brilho festivo devido às cheias e inundações que afectam milhares de famílias no distrito de Marracuene.
A poucos dias da data oficial do evento, assinalado anualmente a 2 de Fevereiro, a administradora do distrito, Teresa Maueie, confirmou, esta sexta-feira, que não existem condições para a realização da festa nos moldes habituais, sublinhando que o momento exige contenção e solidariedade com as populações afectadas pelas calamidades naturais.
“Vamos apenas assinalar o dia com acções simbólicas, porque, como podem ver, as famílias não estão em condições para realizar uma festa”, afirmou Maueie, em declarações à imprensa.
Segundo a governante, a decisão foi tomada tendo em conta o cenário de dor vivido por muitas comunidades, algumas das quais perderam casas, bens e meios de subsistência em consequência das cheias.
“Aquela festa de pompa a que estamos habituados não vai acontecer, porque estamos num momento de luto. Muitas famílias estão a chorar”, reforçou.
A administradora explicou ainda que, neste momento, as prioridades do Governo e das famílias estão centradas na assistência humanitária, com destaque para a distribuição de alimentos, a garantia de condições de saúde e higiene e o apoio às populações acolhidas em centros de acomodação.
“Não há espaço para celebrações quando a nossa luta agora é assegurar comida, saúde e dignidade às famílias afectadas”, frisou.
A decisão de reduzir a celebração ocorre num ano simbólico, em que o município de Marracuene assinala 130 anos da batalha de Gwaza Muthini, travada entre os dias 2 e 3 de Fevereiro de 1895, nas margens do rio Incomáti, durante a resistência à ocupação colonial portuguesa.
Conhecida no idioma ronga como “Gwaza Muthini”, expressão que significa “morrer em casa”, a batalha marcou a derrota militar dos guerreiros de Gaza, liderados por figuras como Nwamatibyana, Zihlahla, Mahazule e Mulungu, mas permanece, até hoje, como símbolo de heroicidade e resistência para os habitantes de Marracuene. Os combatentes que tombaram foram enterrados numa vala comum, local hoje consagrado pelo Monumento de Gwaza Muthini.
As comemorações foram retomadas em 1994, por iniciativa de António Yok Chan, com apoio do Governo, numa perspectiva de valorização da memória histórica e dos líderes da resistência nacional no sul do país.
Em condições normais, a efeméride inclui uma parte oficial, com homenagens e momentos culturais, e uma componente recreativa, marcada por espectáculos musicais e actividades económicas que dinamizam a economia local e promovem o turismo cultural. Contudo, este ano, as calamidades naturais impuseram um redimensionamento da celebração, limitando-a a actos simbólicos em respeito às vítimas das cheias.