As cheias em curso em Moçambique estão a provocar um abalo profundo no sector produtivo rural, com impactos que ultrapassam a destruição imediata e ameaçam a segurança alimentar, os rendimentos familiares e a resiliência económica de vastas regiões do país. Até 21 de Janeiro de 2026, cerca de 186.735 hectares de áreas agrícolas foram inundados, com especial incidência nas províncias de Gaza e Maputo, zonas tradicionalmente centrais para a produção alimentar do sul.
A província de Gaza emerge como o epicentro da catástrofe agrícola, concentrando mais de metade da área submersa, 110.472 hectares, sobretudo nos distritos de Chókwè e Massingir. Seguem-se a província e a cidade de Maputo, com 51.572 hectares afectados em Magude, Manhiça e Namaacha. Em Inhambane, as cheias já engoliram cerca de 20 mil hectares, enquanto Sofala contabiliza 4.691 hectares inundados nos distritos do Búzi, Gorongosa e Chibabava. O padrão geográfico revela um sul particularmente exposto, onde a agricultura familiar é a principal fonte de sustento, ampliando o risco de escassez alimentar e perda de rendimento nos próximos meses.
O impacto estende-se de forma severa à pecuária, outro pilar da economia rural. Em Gaza, morreram 55.835 bovinos, 7.749 caprinos e 1.237 ovinos. Na província de Maputo, as perdas atingem 47.109 bovinos, 23.362 caprinos e 7.920 suínos, afectando directamente 4.337 criadores. Para milhares de famílias, trata-se não apenas da perda de animais, mas da destruição de poupanças, força de trabalho e reserva alimentar, aprofundando a vulnerabilidade social.
Paralelamente, as autoridades reconhecem uma pressão crescente sobre o sistema de saúde nas zonas inundadas. O Governo instalou 49 postos médicos nas províncias de Maputo e Gaza, com equipas permanentes. Até 20 de Janeiro, foram atendidos 1.305 pacientes, predominando casos de diarreia aguda, malária e infecções respiratórias, um perfil epidemiológico típico de contextos de cheias, marcado pela degradação das condições de saneamento, água e abrigo.
Perante o risco de surtos, foi reforçada a vigilância epidemiológica, com monitoria dos canais endémicos e redistribuição de medicamentos e insumos para zonas seguras. Foram igualmente disponibilizadas 40.350 redes mosquiteiras para os centros de acomodação, num esforço de mitigação que, embora relevante, evidencia que a crise já ultrapassou o domínio da resposta pontual, configurando-se como uma emergência com efeitos prolongados sobre produção, saúde pública e estabilidade social.