CARLOS CARDOSO

Nelson Saúte

Eu vivia no Bairro da Coop, numa rua que agora ostenta o nome de Aquino de Bragança e, naquele final de tarde, acabara de receber, em casa, o quadro do Gemuce, uma enorme tela que retratava o milagre da Rosita, que nascera numa árvore, quando a mãe, Carolina, se refugiara das cheias, no apocalíptico ano de 2000. Adquirira a obra num leilão no Centro Cultural Brasileiro e, naquela tremenda quarta-feira, os curadores mandaram-na entregar. Mal pousei o quadro, uma brutal notícia deflagrou e detonou tudo à volta: Carlos Cardoso acabara de ser assassinado. Passam hoje 25 anos.

Não tenho ciência de quando e onde conheci o Cardoso. Nem sequer me move, nesta evocação, esse tipo de preocupação. Creio até tê-lo conhecido primeiro como poeta antes do jornalista. O exemplar do seu livro data de 21 de Agosto de 1985. Quando me iniciei na arte de fazer a minha biblioteca pessoal datava os livros. Um autógrafo do autor seria realizado sobre a primeira página no dia 8 de Abril de 1987. Encontrávamo-nos na AEMO ou nos Msahos. Tenho fotografias em que estamos em casa do José Craveirinha num daqueles 28 de Maio em que íamos lá saudar o Poeta.

A sua personalidade intrépida, as suas lutas indeclináveis, as suas intervenções corajosas, os seus combates vigorosos, bem como, ou sobretudo as suas causas, algumas que poderiam parecer quixotescas, como aquela sobre a legalização da “cannabis”, tornaram-no uma personagem com grande relevância e conhecimento no nosso jornalismo. Conhecia e falava com propriedade da África do Sul e da África Austral, não só por ter vivido e estudado na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, mas também porque investigava e conhecia as raízes profundas do regime do apartheid. Dir-se-ia o mesmo dos muitos cancros da nossa sociedade que ele diagnosticava e que foram a bandeira do seu jornalismo de luta obstinada – sempre comprometido, sempre combativo e de compromisso indeclinável.

Fui companheiro do Cardoso nos comentários políticos na Rádio Moçambique e eram ocasiões de grande cumplicidade e de camaradagem. Mas não é esse Carlos Cardoso que quero evocar hoje, no dia em que passam 25 anos sobre a sua morte. Quero referir-me sobretudo ao poeta, provavelmente desconhecido para a grande maioria e que está completamente esquecido.

Lendo a sua poesia, reunida num livro publicado na vetusta colecção Gostar de Ler, da Cadernos Tempo, intitulado “Directo ao Assunto”, o Cardoso que é hoje frequentemente rememorado está lá sem ambiguidades. Aliás, uma espécie de epígrafe deste livro constitui o avatar da descrição do seu legado: “No ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras.” É uma espécie de prefácio que o autor faz e é o seu declarado amor aos “escribas desacocorados”. Quem quiser ver, nesta alusão, uma espécie de deboche ao título “o escriba acocorado”, poder ter uma margem dedutiva para isso. Mas não creio que seja profícuo.

O livro é dividido em três partes: 1) Encontros imediatos além de qualquer grau; 2) Intercâmbios com o resto e; 3) Processo. Os poemas mais antigos datam de 1973 e foram escritos em Joanesburgo, alguns em inglês, tendo o autor traduzido, à excepção daqueles versos cuja tradução se revelou uma empresa impossível. Os poemas de 1983 são os mais antigos. Não estão ordenados por data, pese embora não escapem a uma espécie de prescrição temporal.

Os poemas, na sua maioria, estão datados, no sentido de que relevam desse tempo e não resistem, alguns, à voragem do mesmo. São quase sempre poemas de intervenção. Poemas que interpelam. O ofício poético de Carlos Cardoso é, na sua essência, um acto de quem está a apostrofar. De quem atalha directo. De quem arremessa. Talvez por isso, eu me incline para os seus poemas menos extensos, os mais breves, os menos discursivos. Os menos prolixos. Cito os poemas que me são próximos:

 

Primeiro aniversário

“Hoje

Aromas chamanculos

politizam os fogões

da polana.”

(3 de Fevereiro de 77)

 

Cartaz

“república popular de moçambique:

ideia comunal.”

(Novembro 83)

 

Discurso novo da mulher

“Eh! todos aí,

vamos deslobolar este País.”

 

(1978)

 

Ordem do camponês congressista

 

“Camarada,

vamos todos descalçar

as balalaicas.”

(Maio 83)

Carlos Cardoso foi um poeta profundamente empenhado no devir de uma nova sociedade que o 25 de Junho de 1975 (o último poema do livro é “Da história para os filhos de vinte e cinco”): a sua poesia é uma espécie de crónica da revolução, na qual é possível, a esta distância, ver ou intuir, como todos nós que acreditávamos, talvez fóssemos ingénuos, vendo agora como se fez o rio da História, muito do que se acreditou ser o seu curso natural não foi o bastante para fazer sequer os seus afluentes.

Outros versos:

“Às vezes os subdesenvolvidos matam

para deixarem

de ter que matar.”

(1977)

 

Shakespeare que me desculpe

“Mas para nós, os subdesenvolvidos,

a questão é ter

com que ser.”

(Agosto 82)

Que leitura teriam hoje estes poemas? – interrogo-me. Anoto:

“Uma imagem tão leve

como um esfomeado

pouco antes mesmo de morrer.”

(1978)

Não os interpreto. Deixo-os à consideração de quem os lê. Quero, no entanto, sublinhar que Carlos Cardoso quando sentia esse impulso lírico era também um poeta do amor e cito-lhe os seguintes (belos) versos:

“(À Maria)

Que bom mergulhar os dedos

no sistema do teu jeito

de me amares

sentada

no parapeito dos meus olhos.”

 

(1976)

Um dos mais belos poemas do Carlos Cardoso não está editado no seu livro, mas na antologia que Fátima Mendonça e eu organizámos, intitulada “Antologia da Nova Poesia Moçambicana”, e era, até então, inédito. Eu resgatei-o para a minha Antologia de Poesia Moçambicana: “Nunca Mais é Sábado”. O título é “Cidade 1985”. É longo, mas estou tentado a transcrevê-lo na íntegra. É árduo copiá-lo, contudo, faço-o em homenagem a este poeta tão pouco evocado quando se fala do seu nome.

 

Cidade 1985

 

“De manhã quando acordo

em Maputo

o almoço é uma esperança.

 

Mãe tenho fome

marido tenho bicha

e mil malárias me disputando a vontade.

 

De manhã quando acordo

em Maputo

o jantar é uma incerteza

o serviço uma militância política

         do outro lado do sono incompleto

e o chapa-cem um regulado impiedoso

         no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

 

De manhã quando acordo

em Maputo

o vizinho já candongou o que me roubou

a estomatologia não tem anestesia

a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada

e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

 

De manhã quando acordo

em Maputo

Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão

Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água

Porra para os cem gramas de carne apodrecidos

            No silêncio desenergético de Komatiport

mais as ó eme emes sem dê efes

e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios

           são lugares públicos

e os fulanizados explorados de outrora

           que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,

às ordens de um Mouzinho bóer.

 

Mas ao anoitecer quando me percorro

em Maputo

enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência

desembainho felinamente mais uma mentira diplomática

e aguardo a lucidez companheira me leia

          nas acácias em sangue

          nos jacarandás estalando sob a sola epidérmica do povo

que este é ainda o eco estridente do Chai

até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

 

Então,

com a raiva intacta resgatada à dor

danço no coração um xigubo guerreiro

e clandestinamente soletro a utopia invicta.

 

À noite quando me deito

em Maputo

não preciso de rezar.

Já sou herói.”

Este é, provavelmente, o mais belo e poderoso poema do Carlos Cardoso. É um arroubo – lúcido, terno, fecundo, facundo, indómito, furioso, probo, digno, exaltado. Um dos mais belos poemas escritos num tempo ominoso, aziago, agourento. Naqueles anos em que tínhamos a certeza de que experimentáramos a infâmia, a abjecção, o aviltamento, o opróbrio. A ignomínia.

Mal poderíamos intuir o que viria, que tempo ulterior haveria de lhe suceder, no esplendor do desprestígio, do ultraje, do deslouvor, onde haveríamos de nos ver atolados no descrédito, engolfados sem aparente remissão e órfãos de vozes como esta, a do Carlos Cardoso, que nos poderiam salvar do desamparo e nos devolver alguma dignidade e esperança no porvir.

Rosita tem a idade da morte do Cardoso – 25 anos! – e é como se fosse o renascimento daquele sonho moçambicano, daquela ilusão de que é feita esta poesia, daquela confiança, da convicção, daquela firmeza, daqueles tempos indómitos, daquele futuro irrefreado, daquele tempo invencível e indócil. A tela do Gemuce está marcada por aquele acontecimento fatídico, mas isso não é nenhum anátema. Antes pelo contrário. Quando a contemplo e vejo aquele voo azul da Rosita e quando me lembro assim do Carlos Cardoso, que emigrou para um daqueles páramos azuis, acredito que os nossos sonhos improváveis são ainda possíveis de cumprir na nossa bela e fatigada terra.

KaMpfumo, 22 de Novembro de 2025

 

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