
A história se repete
A incapacidade em encontrar alternativas de governação empurrou sucessivos governos da Frelimo a pactos junto do FMI e do Banco Mundial
Os planos do Fundo Monetário Internacional (FMI), no final da guerra fria, passavam por tornar Moçambique uma nova colónia. Por meio da imposição de políticas, a elite política governamental, sempre ligada a Frelimo, serviria a interesses dos investidores estrangeiros. A publicação da obra de Joseph Hanlon, “Moçambique recolonizado através da corrupção”, em Outubro de 2025, destapou o véu desta tematica. E o país fez o habitual coro de silêncio. Hanlon faz uma análise ao processo político que redefiniu o país durante a transição do socialismo ao capitalismo. E a historia se repete. O novo Governo de Daniel Chapo estreou-se firmando forte parceria junto de antigos parceiros como o Banco Mundial, a vigorar desde 2026 – 2031, prevendo-se um financiamento de cerca de 10 mil milhões de dólares. O FMI pressiona o mesmo Executivo à implementação de reformas estruturais em nome de colocar em ordem as contas públicas.
Em Outubro de 2025, Joseph Hanlon lançou a obra “Moçambique recolonizado através da corrupção”, quando o país ainda se recuperava da maior devastação de sempre ao tecido económico, entre outros sectores, na sequência das manifestações pós-eleitorais de Outubro de 2024. As revoltas tinham cunho eleitoral, mas no terreno era evidente a fúria de um povo em reivindicação a políticas fracassadas de ciclos de Governo que mantiveram o país nos níveis de pobreza, desemprego, falta de oportunidades e/ou exclusão social em sectores de tomadas de decisão.
Dentro deste ambiente Hanlon lança “Moçambique recolonizado através da corrupção”, ampliando temas para debate do que há muito inquietava os moçambicanos. Trata-se de questões que não se limitam apenas ao debate do processo político que conduziu o passado do país. Hanlon alerta, igualmente, para a repetição do passado na actualidade, em que instituições da Bretton Woods (FMI e Banco Mundial) aspiram recolonizar Moçambique através da corrupção. No entanto, tal como foi apanágio do partido no poder, furtar-se a discussão de questões sensíveis para a saúde do país, estes debates foram reduzidos ao propagandismo político, no chamado diálogo nacional inclusivo.
A preocupação do novo Governo que assumiu o poder em meio a contestações foi desdramatizar questões estruturais que caracterizaram governos que o antecederam levando a fracassos de sempre.
Estratégias de disfarce, privatizações e reforma salarial
Moçambique adopta o multipartidarismo, como resultado da guerra, e realiza as primeiras eleições em finais de 1994. É durante o consulado de Joaquim Chissano, que em Janeiro de 1995, instituições da Bretton Woods (FMI e Banco Mundial), pressionam o Governo para uma série de corte de gorduras em despesas do aparelho do Estado.
Em 1995, o Governo de Chissano surpreendeu doadores ao ajustar salários para 20 dólares por mês, contrariando o FMI, os planos de dominar o país pelas instituições da Bretton Woods (FMI e Banco Mundial) se impuseram no momento crítico em que o Estado mais precisava de ajuda no período pós-guerra de 16 anos, a mesma guerra que teria sido instrumento de pressão dos doadores.
Para o FMI e Banco Mundial fixarem planos de recolonização, em meados da década de 1990, Moçambique teve duas figuras que Joseph Hanlon apelida “crocodilos”, os chamados todo-poderosos, nomeadamente Sérgio Pereira Leite, chefe da Divisão da África Austral do FMI, e Phyllis Pomerantz, directora de Operações do Banco Mundial para Moçambique, a encabeçarem a privatização dos bancos. Por meio da ditadura, tornar-se-iam responsáveis pelo colapso do sector industrial, como foi exemplo o fim do processamento da castanha de caju em Moçambique. Pelo menos, dez mil postos de trabalho foram perdidos. Por outro lado, houve pressão porque sempre foi a ambição das instituições da Bretton Woods, a privatização do braço empresarial estratégico do Governo, nomeadamente electricidade, a LAM e os caminhos-de-ferro, e fracassaram. Mas Hanlon avisa que “os crocodilos” não esquecem e continuam a querer os comboios”.
A família alargada do Presidente Joaquim Chissano esteve envolvida no processo de privatização por imposição do FMI e Banco Mundial e Chissano tanto enriqueceu que chegou a recusar-se a publicar uma lista de seus bens. Por outro lado, o também antigo presidente Armando Guebuza viria a construir seu império no mesmo processo, tornando-se um dos mais ricos quando chega a presidência, destampa na sua obra.
“Os EUA não queriam um Moçambique próspero e desenvolvido, mas sim uma nova colónia. Mas isto era o colonialismo do século XXI, em que os colonizadores eram os bancos e as empresas transnacionais, com o FMI e o Banco Mundial a assegurarem a governação geral”, delata Hanlon.
Sem capacidade de reinvenção, o passado a se repete
O Banco Mundial continua entre maiores parceiros de desenvolvimento de Moçambique para o actual Governo, apesar dos riscos para a repetição do passado pobre de um país empobrecido com todos os recursos que detém. A título ilustrativo, no quadro desta parceria, está em curso uma nova janela para 2026 – 2031 em que se prevê cerca de 10 mil milhões de dólares em financiamento. O montante inclui 6 mil milhões, alegadamente para projectos públicos e 4 mil milhões para o sector privado.
Consta também um financiamento de 450 milhões de dólares norte-americanos para Moçambique, destinados a apoiar a recuperação económica, social e humanitária do país, neste contexto marcado por chuvas severas, vulnerabilidade climática e desafios estruturais ao desenvolvimento.
No plano sectorial, o Banco Mundial deverá centrar seus esforços nos sectores estratégicos como de energia, agronegócio e turismo, apoiar a revitalização dos corredores económicos e a dinamização da economia nacional. O programa prevê ainda investimentos no desenvolvimento de uma força laboral mais qualificada, bem como o reforço da estabilidade macrofiscal, factores considerados cruciais para atrair investimento e promover a confiança económica.
As estratégias de sempre do FMI
Por outro lado, em Fevereiro passado, assistiu-se um FMI a ameaçar o país para a necessidade urgentemente de reformas estruturais, pressionando o Governo de Daniel Chapo a agir sob risco de perder novos financiamentos. As exigências incluem melhor gestão do fundo soberano, controlo da massa salarial e contenção da dívida pública, que ronda 91% do PIB.
Como resposta as ordens do FMI, o Governo de Chapo foi atrás de uma empresa dos EUA para pedir auxílio após duras críticas, indicando foco na diplomacia económica.
No entanto, Hanlon acusa as Instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial) de terem sido pioneiras das notícias falsas, mesmo antes do advento das redes sociais. Durante o processo de privatização, as IBW continuariam a mentir aos moçambicanos, simulando estudos a constatarem falsos resultados. Sob o PRE do Governo, em plena guerra, o PIB entre 1986 e 1990 subiu de 87 para 108 dólares per capita. Mas com o PRES (Programa de Recuperação Económica e Social) uma substituição imposta pelo FMI, para negar eficiência do PRE, o PIB caiu em 1995 para 91 dólares per capita, apesar do fim da guerra.
A título de exemplo, por volta de 1990, o FMI que contava com o apoio dos Estados Unidos da América (EUA) obrigou a que o PRE fosse substituído pelo Programa de Recuperação Económica e Social (PRES) que adoptou novas políticas a apertar cada vez mais o cinto dos moçambicanos. Na prática, o PRES significou o fim do controlo pelos preços e do abastecimento alimentar urbano barato, cortes acentuados na despesa pública e restrições ao crédito, incluindo cortes nos empréstimos do Banco Mundial. Era uma imposição do FMI feita à base de mentiras, cujos resultados não tardaram a colocar o país ainda mais retardado.